segunda-feira, 17 de março de 2014

Talvez...

Talvez tenham faltado as palavras exatas
No momento oportuno.
Talvez tenhamos nos precipitado
Em colher o que não havia vingado.
Talvez o acaso só tenha nos testado
Para saber o quanto aguentamos.
Talvez tenhamos visto sombras
Onde poderia ser só luz.
Talvez o inverso também aconteceu.
Talvez sejamos o simulacro de algo que nem sabemos.

Talvez habitantes de outros planetas

Tenham assistido de camarote ao show da vida na terra.
E riram e se divertiram, mas desistiram de nos visitar.


Talvez isso, talvez aquilo.

Talvez seus olhos, talvez os meus.
Talvez nenhum. 
Nenhum deleite.
Nenhuma sobra. 
Nada de sonhos.
Nada de brisa.
Só breu.
Talvez...




domingo, 16 de março de 2014

Voo de Ícaro

Noites insones
Dias sem brilho
Crise no mundo cá dentro.
Sempre à beira do abismo
E, sobretudo, prestes a alçar voo.

Mas voar com quais asas
Se nos roubaram lá na infância
O sonho de Ícaro?

Sonhos

[...] nós temos olhos que se abrem para dentro, 

esses que usamos para ver os sonhos...
Os sonhos são o que nos mantêm ainda vivos.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Conto: OFFLINE

Dia nenhum. Maria Sicrana, 40, brasileira, escritora, cansada de guerra, da luta vã com as palavras, com o público que não a entende mais, da vida desgastada pelos papéis que se juntam a sua frente, cheios de uma escrita para ninguém. Maria Sicrana precisa de mote. Acorda naquele dia pronta para perpetrar um crime. Só assim encontraria a vida que há tanto perdera. “Chega o momento em que a imagem de nossa vida se separa da própria vida, torna-se independente e, pouco a pouco, começa a nos dominar.”
Dia um. Maria sai de casa cedo, decidida a viver intensamente os próximos dias. Observa de longe uma lan house. Estaciona a alguns quarteirões. Vai a pé até o local. Entra no ambiente envolto em leve penumbra, com cheiro putrefato comum de humanos descuidados de higiene e tomado pela fumaça de cigarros dos usuários que fumam encostados na porta de entrada. Ela entra enojada. Solicita uma máquina, senta-se e começa sua busca por alguém que estivesse disposto a cometer um crime em troca de quantia razoável do vil metal que guardara em sua carreira agora apagada. Como é de costume dos que não querem ser reconhecidos, cria um perfil falso numa rede social. Lembra-se de Antônio, colega de escola que na sua longínqua infância causava medo nos colegas por ser um grosseiro que cuspia a palavra arma a todos que o olhavam por mais de alguns segundos. Antônio Fulano era temido por todos do colégio. Mesmo os professores e inspetores o tratavam com certo receio, tentando não avivar a fúria que possivelmente vivia naquele corpo grande de menino que estava fora de sua faixa etária na escola. Maria Sicrana o encontra na rede, envia um convite e volta para casa. O plano iniciara bem, embora tivesse gasto muito tempo em busca do homem que precisava. O que planejara, carecia de tempo e paciência. Tinha tempo. E talvez não possuísse a paciência dos que ajudam necessitados, mas a de quem quer sair ilesa de um crime sonhado perfeito. Volta satisfeita para casa. Porém, ansiava pela resposta.
Dia dois. Maria aguarda um dia inteiro para ir só à noite à procura de outra lan house com o intuito de saber se fora aceita. Solicita uma máquina. As mãos estão geladas e trêmulas. Quando abre seu perfil está lá. Antônio era agora seu amigo virtual. Ele estava online. Apresentou-se para ele como Maria Beltrano, brasileira à procura de amigos. Conversaram longamente. E melhor, descobriu que ele se casara, mas algo deu errado e abandonou a esposa e filhos. Perfeito! Antônio vivia sozinho, num bairro de classe baixa da cidade, trabalhava como ajudante de mecânico numa oficina de pouco nome. Adquiriu a confiança dele, fazendo-se de boa gente, que poderia ser de fato, quem sabe. Antônio insistiu em conhecê-la. Ela se esquivou. Não podia. Ela tinha uma proposta para ele, mas só diria no outro dia. Marcou horário à noite na rede. Saiu da máquina e foi para casa.
Dia três. Maria adiantou o assunto que a levara a procurar por alguém anônimo. Não há por que prolongar dores de quem tem o remédio acessível. Disse que procurava alguém que fosse corajoso o bastante para matar uma mulher e que pagaria bem. Silêncio do outro lado da rede. Sumiu o homem.
Dia quatro. Maria foi a outra lan house no horário da noite anterior. Solicitou a máquina. Entrou em seu perfil. Nada de ele aparecer.
Dia cinco. Nenhum Antônio que surgira mais. Ela começou a se irritar. Ficou horas a fio diante daquele computador depauperado. “Ele vai voltar” – pensou, tentando acalmar a si mesma. “Dinheiro cheira bem quando a vida nos nega privilégios. Amanhã quem sabe.” Maria sabia que Antônio sentia-se cansado daquela miséria de vida: sair da oficina, passar de vez em quando na lan house para fugir um pouco da dureza do cotidiano, tomar um trago e dormir sozinho no cômodo puído que dissera viver.
Dia seis. Outra casa de máquinas, ela o viu online:
_ Estava esperando por você.
_ Não vê que minha vida já é por demais seca de alegrias para trazer-me ainda sangue nas mãos?
_ Você não a conhece, Antônio. Nem a mim conhecerá. É seguro. Eu não o verei nunca também. Preciso que faça isso por mim, pois se for eu, desconfiarão. Não lhe custará nada. Ela precisa morrer. Já prejudicou demais minha vida.
_ Não posso! – foi-se.
Dia sete. Assim que entrou, apareceu em sua tela: “Eu nem tenho arma...”. Era a hora. Sabia que ele iria cometer o crime. Pediu que voltasse no outro dia, pois ela diria onde estava a arma que seria usada, um pouco do dinheiro e identificação da vítima.
Dia oito. Na lan house, falou rapidamente com o assassino, explicou-lhe que a arma estava ao pé de uma árvore próxima a determinado lugar. Havia ainda uma foto da vítima e o endereço para ele começar a observá-la de dia, já que ela não costumava sair com frequência à noite. Levou também um envelope com boa parte do dinheiro para que ele se convencesse de que, ao contrário do que dizem por aí, o crime valeria a pena. Havia tanto dinheiro que ele não resistiria e afinal perceberia que uma vida não vale ser refletida. Saiu dali, depositou os objetos no local que havia combinado e foi para o carro a passos largos. Rapidamente, rumou ao endereço deixado para Antônio, e de longe, embaixo de uma grande árvore com seus braços estendendo a sombra para protegê-la do olhar dele, ficou à espreita, na certeza de que ele iria ainda naquela noite observar a casa. Muito tempo depois, viu quando Antônio passou pela calçada olhando indisfarçadamente, já que estava tudo apagado e não havia movimento na rua. Não carregava nada nas mãos, provavelmente ele tivesse guardado tudo em algum local seguro antes de vir, por isso a demora. Suas mãos estavam trêmulas e suavam. Talvez o assassino também estivesse agora com a mesma sensação. Maria refletiu sobre a vida. Disse a si mesma que realmente a vida é breve demais, barata em demasia, e como lera certa vez num livro, “a unidade da humanidade significa: ninguém pode escapar em lugar nenhum.” Não sabia ao certo se esta sentença cabia àquela situação, mas achou propícia. Não há como fugir à morte. À vida sim. Sentiu uma leve tontura ao vê-lo desaparecer na penumbra da noite, para o outro lado da rua. Lembrou-se de que “[...] a vertigem é a embriaguez causada pela nossa própria fraqueza.”
Dia nove. Antônio não apareceu online. “Aquele estúpido terá desistido? Não. Ele vai querer mais dinheiro”. Resolveu passar pela rua da casa da vítima. Quando estava se aproximando, viu que o homem perambulava pela calçada da casa. “Idiota! Ele deveria estar falando comigo agora...” Passou por ele sem levantar suspeitas. Estacionou o carro longe. Apagou os faróis. Olhava pelo retrovisor. Aguardou até que ele desaparecesse na escuridão da noite, tentando sufocar o tremor que tomou conta do corpo todo. Pensou no livro que lera: “Qualquer homem é fraco quando se vê diante de uma força superior.” Ele agora se tornara um deus. Capaz de tirar uma vida quando quisesse. Carregava o metal pesado na cintura disfarçado pela camisa folgada. Deveria estar confiante.
Dia dez. Ele voltou a ficar online e ela perguntou se já tinha visto a mulher. Antônio respondeu que não: “Acho que essa pessoa não sai de dia, e à noite está sempre tudo apagado...”. Maria pediu a ele que se acalmasse e que não fosse à noite observar, pois os vizinhos poderiam desconfiar. Avisou-lhe que havia outra quantia do dinheiro em determinado lugar. Despediu-se, saiu daquele ambiente sombrio com cheiro de mofo e foi deixar o dinheiro no local combinado. Cuidava para depositar o pacote sempre perto dos lugares em que estava teclando.
Dia onze. O homem começou a ficar ansioso, queria acabar logo com aquilo, pegar o resto da grana e não voltar a falar com ela: “Não quero ser escravo de ninguém. Preciso pagar o que devo.”
Dia doze. Finalmente a noite escolhida cuidadosamente por Maria chegara, deu o aval. “Será amanhã e você não me deverá mais nada.” Pediu a Antônio que pegasse o pacote com o dinheiro no lugar que ela diria, uma cópia da chave da casa da mulher, e assegurou que ele poderia entrar e matá-la depois da meia-noite sem transtornos. Havia silenciador na arma. Não haveria ninguém além da vítima. Tudo muito seguro. Despediu-se. Agradeceu ao assassino, deixou o envelope e voltou para casa. Ninguém desconfiaria dela. Rememorou: “É preciso várias vidas para fazer uma só pessoa.” Morrer é tão natural quanto nascer ou viver. Daria um bom livro, pensou ela. “Talvez meus leitores gostassem da história. Nem sei se gostariam. Essas personagens são reais e eles só querem o imaginário, o ilusório, o fictício. Interessa-lhes somente o que não existe de fato. A mentira é atraente.”
Dia treze. Lua cheia espreitando a terra. “O destino nos vampiriza, nos pesa, é como uma bola de ferro amarrada aos nossos tornozelos.” O destino de Antônio e da vítima estavam pactuados. Nenhum sobreviveria ileso. Antônio passou pela calçada da residência à meia-noite e meia. Não havia ninguém pelas redondezas. Com uma luva nas mãos, pôs a chave na porta lentamente e entrou com todo cuidado para não derrubar nada que pudesse acordar a mulher. A claridade da lua invadia a casa possibilitando ao matador caminhar sem perigo. Com passos lentos, mas nervosos passou pela sala, adentrou o corredor que dava direto para a única porta fechada: “Devia ser o quarto...”. Abriu silenciosamente a porta e viu na cama a mulher que lhe proporcionara um dinheiro que o tiraria daquele chiqueiro em que vivia. Apertou o gatilho. Ela gritou: “Antônio”. Assustado, atirou mais três vezes. Saiu correndo. “Essa maldita sabia meu nome!!!” Desapareceu sob o olhar indignado da lua, jogou a arma num riacho por onde passou. Chegou em casa,  tomou um largo trago: “Que vida desgraçada, meu Deus.”



Algumas citações do livro A Arte do Romance de Milan Kundera

Noite

É que às vezes a noite é longa demais...
Observo as estrelas
timidamente escondidas
entre uma nuvem e outra.

Elas não me veem.
Não sabem de mim.
Sou uma gota neste oceano de gentes.

Perambulantes assombrados
com o que lhes reserva
o amanhã...

segunda-feira, 3 de março de 2014

Palavras

Entre o dito e o não dito
Faltaram palavras que tivessem 
a materialização do sentido.
As palavras foram esnobes
Quando precisávamos delas
Para explicarmo-nos a nós mesmos...

Sem razão

            "Deveria ser fácil compreender os sentimentos uma vez que os experimentamos infinitas vezes", assegurou o professor Dante.
               O problema é que infinitas vezes sofremos ou nos alegramos com esses sentimentos como se os tivéssemos percebido pela primeira vez.
               Parece uma infinda escola, essa vida, que leva e traz todas as frustrações e/ou alegrias o tempo todo, feito as ondas quem vêm à praia, lambem-na sem pedir licença, depois voltam para seu recôndito silencioso e profundo, sorrateiramente...

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Máscaras

"E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro a minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara."
Clarice Lispector 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Verdades

"A verdade não pode ser senão violenta.
Não há verdade apaziguadora." 


JOCA REINERS TERRON      (Não Há Nada Lá)


















Ainda assim, prefiro a verdade violenta à mentira que conforta.
O conforto da ilusão pode custar-nos caro, não raro.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Apanhar sonhos

Frondosa e alta é a árvore de onde
Escorrem sonhos em folhas
Pétalas, raízes, frutos.

Necessário se faz subir,
Puxar com cuidado o que deseja
E descer calmamente 
Para que não escorra pelos dedos
Os sonhos em formas tantas que apanhastes.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Pote dos sonhos

O sonho encheu a noite
Extravasou pro meu dia
Encheu minha vida
E é dele que eu vou viver
Porque sonho não morre.


ADÉLIA PRADO

Sementes

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio, 
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

ADÉLIA PRADO

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Sem danos

A desgraçada desesperança chega
Invade a penumbra do quarto
Sorrateiramente enfia-se sob meus lençóis
Me toca, insinua-se, sorri
E fazemos amor sem compromisso.

No outro dia resta apenas um bilhete:
"Volto quando quiser."


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Nocturnamente

Nocturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo

Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio

Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces

MIA COUTO


Poema da Despedida

Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
 os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
 nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo

MIA COUTO


Anonimato

Dos versos que escrevi
Metade era de alguém
A outra metade também.

Farrapos

E de tanto caminhar me desvencilhando de mim
Encontro meus farrapos no chão
Visão dos desesperados
Medo súbito
Arfar incessante
Impotência dos loucos
Prisão da fênix.
Não há nada que vá nascer das cinzas
Saídas dos farrapos de mim
Despejados no chão.

Pisoteio e continuo a caminhar

Fantasma perambulante
Sem roupa, sem sonhos, sem deuses, sem alma...



domingo, 9 de fevereiro de 2014

Vida/Tempo - Viviane Mosé

A maioria das doenças que as pessoas têm
São poemas presos
Abcessos, tumores, nódulos, pedras
São palavras calcificadas, poemas sem vazão
Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado
Poderia um dia ter sido poema, mas não 

Pessoas adoecem da razão
De gostar de palavra presa
Palavra boa é palavra líquida
Escorrendo em estado de lágrima

Lágrima é dor derretida
Dor endurecida é tumor
Lágrima é raiva derretida
Raiva endurecida é tumor
Lágrima é alegria derretida
Alegria endurecida é tumor
Lágrima é pessoa derretida
Pessoa endurecida é tumor
Tempo endurecido é tumor
Tempo derretido é poema

VIVIANE MOSÉ
(Do livro Pensamento Chão)
Derretamos, pois, em lágrimas e poemas que levam as durezas...

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Pergunta-me


Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda

o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer


Mia Couto


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O AMOR, MEU AMOR

Nosso amor é impuro 

como impura é a luz e a água 
e tudo quanto nasce 
e vive além do tempo. 

Minhas pernas são água, 
as tuas são luz 
e dão a volta ao universo 
quando se enlaçam 
até se tornarem deserto e escuro. 
E eu sofro de te abraçar 
depois de te abraçar para não sofrer. 

E toco-te 
para deixares de ter corpo 
e o meu corpo nasce 
quando se extingue no teu. 

E respiro em ti 
para me sufocar 
e espreito em tua claridade 
para me cegar, 
meu Sol vertido em Lua, 
minha noite alvorecida.


Tu me bebes 

e eu me converto na tua sede. 
Meus lábios mordem, 
meus dentes beijam, 
minha pele te veste 
e ficas ainda mais despida. 

Pudesse eu ser tu 
E em tua saudade ser a minha própria espera. 

Mas eu deito-me em teu leito 
Quando apenas queria dormir em ti. 

E sonho-te 
Quando ansiava ser um sonho teu. 

E levito, voo de semente, 
para em mim mesmo te plantar 
menos que flor: simples perfume, 
lembrança de pétala sem chão onde tombar. 

Teus olhos inundando os meus 
e a minha vida, já sem leito, 
vai galgando margens 
até tudo ser mar. 
Esse mar que só há depois do mar. 

Mia Couto 
No livro "Idades cidades divindades"