sábado, 7 de março de 2015

BÊNÇÃO PARA A MALDADE

"- Quando se inventam assim maldades sobre um povo,
é para abençoar as maldades 
que se vão praticar sobre ele."
Personagem: médico Fernandes 
(O outro pé da sereia - Mia Couto)
Podemos inventar o que quisermos
sobre os africanos ou descendentes
desses, contudo, nada que falemos
apagará da história todas as maldades
cometidas contra eles.
Não há deus africano nenhum que possa
praticar mais atrocidades que cristãos
praticaram pela história da África...
E do mundo afora.

quarta-feira, 4 de março de 2015

SIMPLES ASSIM...

Havia pouco espaço
na caixa torácica para o coração.
Espaço menor ainda para a cabeça
na caixa que lhe caberia.
Sentimentos mútuos
Cheios de contradição.
Vontade de ouvir uma música
nunca antes ouvida.

Som da chuva finalmente.
Familiar demais.
Ouvida incontáveis vezes.
Lavou. Levou.
Essa era a canção que esperava.




terça-feira, 3 de março de 2015

BALANÇO

E quando a noite chegar
Tudo ficará pior.
No escuro os monstros tomam forma.
O dilaceramento humano cresce
Quando se faz um balanço da vida
E conclui-se 
Que uma só não basta.
Seriam necessárias vidas infinitas 
Para se aprender o suficiente.
E talvez o Homem nunca entendesse
A solidão dos cegos
O silêncio dos surdos
E as palavras não pronunciadas dos mudos.
Porque ainda seríamos pequenos demais
Para tanto aprendizado...

domingo, 1 de março de 2015

É MUITA COISA PARA POUCO


É muita queixa para pouca mazela.
É muita música para pouco ouvido.
É muita escuridão para pouca luz.
É muita palavra para poucos fiéis.
É muito dinheiro para pouca gente.
É muita gente para pouco dinheiro.
É muito livro para pouco público.
É muito amor para pouco aprendizado.
É muita hipocrisia para pouca vida.
É muito carro para pouca estrada.
É muito barulho para pouco vizinho.
É muito conflito para pouca paz.
É muito santo para pouco céu.
É pouca paciência para muita demagogia.

Parodiando Zé Ramalho (Do muito e do pouco).

CIRCO DA VIDA

Todo circo montado em eventos é necessário.
Alguns humanos precisam mostrar que detêm o poder.
Utilizam-se do artifício da palavra.
Atuam nos picadeiros da vida
Com o cabo do chicote à mão
Massacrando os pseudo-indefesos
Que fingem ser adestrados.
Como disse o mestre Machado:
"o melhor modo de apreciar o chicote
é ter-lhe o cabo na mão".
Títulos e cargos são chicotes medíocres.



FINITUDE

"O que pode ser de grande valor no homem 
é ele ser uma ponte e não um fim; 
o que se pode amar no homem
 é ele ser uma passagem 
e um acabamento."
Zaratrusta
(Assim falava Zaratrusta p. 27- Nietzsche)

Agradeço ao universo 
porque o Homem é finito.
Um acabamento em si mesmo.
Menos mal!!!

DE PACTOS

Quando criança, um amiguinho me contou a mirabolante história de um tio que fez pacto com o diabo. Confesso que na cabecinha ingênua da criança que acreditava em tudo, isso me perturbou por longos anos. Ele disse que o tio teve tudo o que quis na vida: dinheiro, mulheres, poder sobre o outro, mas além da alma que vendeu, pagou com um câncer horrível que o tomou nos últimos anos de vida e o fez definhar aos poucos até sucumbir. Foi meu primeiro contato com histórias sobre o pacto com o diabo. Que horror, pensava eu menininha. Como alguém troca sua alma com um ser tão maléfico??? Morrer sofrendo com uma doença tão horrível e ter a alma destinada ao mais profundo inferno!!!
Entretanto, meu avô foi tomado também por um câncer que o matou lentamente com muito sofrimento, e nunca soube de ele ter feito algum pacto com o diabo...
E talvez não devêssemos entrar em meandros de tantas mazelas humanas sem pacto algum...
O que ganham em vida??? Sofrimento e sofrimento.
Mas, aguardemos que o povo que fez pacto com deus, ao lado de Moisés, ressuscite após sabe-se lá quantos mil anos para ter direito à vida eterna e contar ao mundo como é um pacto com o supremo. Devem estar cansados de descansar e esperar... Eu estaria.
O mundo da Literatura proporcionou-me mais histórias não menos horrendas sobre o tema. No romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, o protagonista Riobaldo, que fez o pacto com o diabo, perde o grande amor de sua vida, Diadorim, como pagamento. Alto preço. Entretanto, Riobaldo teve muitas terras, dinheiro, foi o líder poderoso de seu bando de jagunços, venceu o inimigo. Depois disso viveu sossegadamente, não fosse a perda inestimável do grande amor de sua vida, que morreu na peleja. É Riobaldo, já na melhor idade, quem conta sua própria história, infere-se, portanto, que viveu muito.
No romance Rio abaixo dos vaqueiros, de Ricardo Guilherme Dicke, há também o tema do pacto. A personagem Homem o fez Crudelíssimo!!! Teve também muito poder, dinheiro, terras, fama de mau pelas redondezas. Era temido. Comprava meninas para vê-las crescer sob seus olhos famintos para mais tarde deflorá-las. Viveu muito, cometendo suas insanidades, aprovado pelo diabo e, de certa forma, por deus. Esses permitiam que quaisquer pessoas non gratas por ele, bem como as meninas compradas, sofressem demasiadamente. A personagem Velho, no mesmo romance, inimigo do Homem, também fez o pacto. É ele quem consegue salvar algumas pessoas das mãos pesadas do outro. Intrigante! Sua alma pertencia ao diabo, contudo era benevolente com inúmeras pessoas.
A ficção traz o mito do pacto com tanta perfeição que parece ser real, uma vez que eram tantas as histórias parecidas sobre o tema que ouvi durante a vida.
Cabem aqui algumas perguntas: Quem passa incólume por essa vida? Quem não perde o amor de sua vida ou entes amados?Quem morre na felicidade absoluta de cruzar a linha da morte, se não os suicidas ou os que acreditam que irão para um paraíso? Cá entre nós, um céu, cujo azul não existe, uma vez que o universo é um imenso infinito. O que dizer das meninas nigerianas que foram sequestradas, das quais não se ouve mais falar? E se pensarmos em todas as pessoas que neste exato momento em que elucubro sobre o assunto, estão sendo aterrorizadas por algum tipo de violência ou medo ou fome ao redor do mundo? Quem garante que aqui ao meu lado, na vizinhança, não esteja ocorrendo alguma atrocidade cometida pelo ser humano? Todas essas vítimas têm pacto com quem? E os algozes? Os que possuem poder sobre o outro, quaisquer que sejam eles, também pactuaram? Que deus ou que diabo lhes deu o direito de serem cruéis com seus semelhantes?
Vejo sim vantagem no mito do pacto com o diabo, pois há uma perda ou duas, no máximo, entretanto goza-se a vida. Ah, se o diabo existisse...
E na verdade existe sim um deus e um diabo, aqueles que residem dentro de todo ser humano e nos faz lembrar da história dos lobos, o mau e o bom. Vence quem você alimentar mais.



SILENCE

"O silêncio não é ausência da fala,
é o dizer-se tudo
sem nenhuma palavra."
Personagem Zero Madzero
(O outro pé da sereia - Mia Couto)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

VOU-ME EMBORA...

Vou-me embora de mim
porque nada mais posso
que olhar para fora,
posto que dentro
é uma bagunça sem fim...

DO TEMPO

"Esta poeira não vem da terra mas dos anos. 
Temos medo do pó porque é uma prova de que 
o Tempo existe e vai nos tornando obsoletos, 
quase minerais." 
Mwadia 
(Personagem de O outro pé da sereia - Mia Couto)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

TERNURA - VINÍCIUS DE MORAES

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
                                                                     [ extático da aurora.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

SANGUE LATINO - NEY MATOGROSSO

Jurei mentiras
E sigo sozinho
Assumo os pecados
Os ventos do norte
Não movem moinhos
E o que me resta
É só um gemido
Minha vida, meus mortos
Meus caminhos tortos
Meu Sangue Latino
Minh'alma cativa
Rompi tratados
Traí os ritos
Quebrei a lança
Lancei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa
É não estar vencido
Minha vida, meus mortos
Meus caminhos tortos
Meu Sangue Latino
Minh'alma cativa

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

EXCERTOS DE G.H.

[...] É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. (p. 16)

[...] Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. (p.17)

A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector 

INVERNO - ANTONIO CICERO

No dia em que fui mais feliz
eu vi um avião
se espelhar no seu olhar até sumir

de lá pra cá não sei
caminho ao longo do canal
faço longas cartas pra ninguém
e o inverno no Leblon é quase glacial.

Há algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente que larguei
naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?

Lá mesmo esqueci
que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudades, sem remorsos, só
sem amarras, barco embriagado ao mar

Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois
pouco antes do ocidente se assombrar.

Melodia: Adriana Calcanhoto

Porque vale a pena ler e ouvir de novo sempre...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

DESAPRENDER

Aprender é uma tarefa
que nunca acaba

Desaprender também
(Geso Silva)

domingo, 11 de janeiro de 2015

SAUDADES AO MAR

Lançastes a garrafa,
mas tua carta nunca chegou.

Saudade imensa do cheiro do mar.
Da maresia que corrói o ferro e os pensamentos nefastos.
Do sargaço trazido pelas ondas, enlaçando as pernas.
Da areia clara que gruda nos pés descalços.

Saudade da paz que a monotonia não rouba.
Da ausência do marasmo.
Do som das ondas surrando as rochas.
Das conchas descansando eternamente pela praia.

Saudade da solidão das jangadas.
Do riso dos pescadores.
Do andar desprendido dos transeuntes
Da vida salgada que a brisa faz doce.

Saudade da garrafa que lançastes e não vi.
 Eu me alimento da esperança dos corais.



sábado, 10 de janeiro de 2015

FIM DE TARDE

O sol se despede do dia dourando os galhos da Castanheira. Majestosa, a árvore portentosa aguarda a lua que prateará suas folhas dando boas-vindas à noite iluminada. O sol se vai, a lua chega e partirá ao amanhecer, mas ela, a árvore com suas raízes fincadas na fecunda terra, permanecerá ali até que algum Mal leve seu sonho de imortalidade: eu, você, o ser humano.
Fim de tarde em Castanheira.

ELA E EU

Há flores de cores concentradas
Ondas queimam rochas com seu sal
Vibrações do sol no pó da estrada
Muita coisa, quase nada
Cataclismas, carnaval

Há muitos planetas habitados
E o vazio da imensidão do céu
Bem e mal e boca e mel
E essa voz que Deus me deu
Mas nada é igual a ela e eu.

Caetano Veloso

LONGOS ARGUMENTOS

Usei os longos argumentos todos.
Andei sobre as águas de Pedro
Voei para o céu de Ícaro
Subi as montanhas de Maomé
Tornei-me o inseto de Kafka.
Porque viver a miséria de ser humano
Não acalenta corações vagabundos.



quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

RESTOS

Nem rangeu a porta
Barulho algum foi ouvido
Ladrão silencioso
Levou sonhos, cores, vida...
Lesados ficamos.

Voltou.

Repentinamente mostrou-se.
Entredentes murmurou algo ininteligível
Estridentes sons estouravam nos tímpanos todos
Ladrão nada cuidadoso
Roubou o vinho, as velas, a mesa...
Impassíveis continuamos.

Fitou-nos profundamente
Virou-se de costas na saída
"Volto para levar o resto."

Nunca mais voltou.
Não havia mais o que levar.
Carregou de nós a sintonia, a dignidade, a fé pouca.

Restos nos tornamos.