domingo, 16 de outubro de 2016

FANTASIA...

"AS OBRAS DE ARTE SÃO,
PARA A PSICANÁLISE, 
SONHOS DIURNOS [...]"
Teoria Estética (p.19) - Theodor W. Adorno
Miguel de Cervantes que o diga...

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

NULIDADE

"O país da fantasia é, neste mundo, 
o único que merece ser habitado;
a essência do homem é tão nula 
que só é belo aquilo que não existe."
Rousseau
 

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

POETAR

"NINGUÉM ESCREVERIA VERSOS
SE O PROBLEMA DA POESIA 
CONSISTISSE EM FAZER-SE
COMPREENSÍVEL."
EUGENIO MONTALE

O POETA...

"ÉS BILINGUE ENTRE COISAS 
DUPLAMENTE AGUDAS, 
TU MESMO ÉS UMA LUTA 
ENTRE TUDO AQUILO QUE LUTA, 
FALANDO NO AMBÍGUO 
COMO ALGUÉM QUE SE DESORIENTOU NA LUTA 
ENTRE AS ASAS E OS ESPINHOS."
SAINT-JOHN PERSE

PROVÁVEL...

"EXISTE UMA CERTA GLÓRIA 
EM NÃO SER COMPREENDIDO."
BAUDELAIRE

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

OCO ESPAÇO

Se eu juntar os buracos cavados no quintal
por suas patinhas teimosas,
não preenchem a cratera aberta em mim pela ausência 
dos seus olhinhos atentos.
E ontem, Luna. Ontem noticiaram a descoberta de um novo planeta neste espaço imenso. Próxima B. Tantos planetas. E penso em você só... 

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

FEL

A intensidade com que você se jogou naquela correnteza feroz
foi a mesma com que corria para os meus braços cansados.
Era sobre uma pedra no meio do rio que se encontrava seu objeto de desejo.
Um pássaro alto, com as pernas alongadas, que fixava o olhar para o fundo.
E você pulou, lutando contra a selvageria da água, em busca de aventura.
Eu a vi submergindo antes de chegar ao pássaro. E me desesperei.
Seu corpo foi desaparecendo diante dos meus olhos aflitos.
Estaquei diante do rio por alguns segundos na esperança de vê-la emergir.
Mas você não voltou.
Em desespero, segui correndo pela margem do rio.
Sonhava encontrá-la abaixo.
Não estava. Que pesadelo!!! Terá ido de novo embora?
Arrancou-se mais uma vez de mim, 
numa cena que meus olhos nunca desejaram ter visto.
A elucubrar, mantive-me diante daquele rio que me roubou.
Por que tanta ferocidade? 
"Devolva-me ela!" - gritei. 
Desisti. Chorei. Amaldiçoei aquele momento.
Senti ódio pela minha fraqueza diante da perda.
Mas de repente vi. Algo lá longe vinha correndo 
novamente para meus braços cansados.
Era você. Com o pelo ainda molhado e a intensidade mesma.
Eu sorri. Você pulou. Mas agora, em mim.
E acordei então com um amargo de fel na alma...

domingo, 14 de agosto de 2016

DOR

"E que dor, se dividida,
fica dor menos doída."
Dizia um livro infantil.
Tudo fazia sentido.
Dividir dor ficaria menos pesaroso.

Mas não. Não é.
"Estamos sós e sem desculpas."
Não quero essa dor. Mas é minha.
Intransferível. Inalienável.
Desgraçadamente minha.

Ainda que a outra sinta dor dilacerante.
Cada qual chora a sua.
Juntas. E sós.

Sem deuses para pedir ajuda.
Não há a quem clamar.

Inunde-se minha face
Porque é só o desejo de agora.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

SILÊNCIO

O silêncio fala.
Às vezes mais alto que um grito.
Na literatura os silêncios são tão ou mais importantes que qualquer voz.
Na vida, idem.
Quando falamos, algo fica silenciado.
Não raro, o não-dito é mais importante.
Cabe, então, a quem ouve interpretar. 

O silêncio está nas palavras ditas pelos olhos,
Nos gestos interrompidos,
Nas atitudes inesperadas...
O silêncio por vezes alivia,
Em outras nos abala.

Um resto de vida pode morar ali.


terça-feira, 26 de julho de 2016

CALAR

Minha história tem lacunas. Muitas.
Preciso preenchê-las...

Coragem. Belo vocábulo.
Difícil é a atitude.
Fazê-la ser no sentido literal.
Ter coragem é não temer.
Não andar à sombra de nada.
Despreocupar-se com o que pensa quem se importa com você.

Mas até onde quem se importa com você aceita o que você pensa?

Quem tinha coragem em antigos tempos,
Ia aos campos de batalha.
Dava sua vida por alguma causa.
Não tinha medo de morrer...

A coragem que aqui descrevo
É a de ser o que se deseja.
De pensar diferente de tantos
De não crer em muita coisa, tendo nascido em um ambiente crédulo.
Não seguir a trilha dos matrimônios "normais", num meio tradicional.
Ser de esquerda em uma família pobre que insiste na direita.
A coragem aqui é tão ínfima que nem cabe um texto.

Por fim... É não ter medo do que sua grande família vai dizer.
E você sabe que vai.



segunda-feira, 4 de julho de 2016

EGO

A profundidade do ego às vezes é tamanha que não se percebe o estrago.
Alguns se dão conta tarde, bem tarde.
Esses dias um acontecimento me pôs a refletir sobre meu próprio egoísmo.
Notava, há muito, o tempo levando de mim coisas que eu gostaria que ficassem grudadas.
Amigos, supostos amores, afetos, gente que foi importante na minha caminhada.
Alguns que seguraram com força a mão, quando fragilizada.
E em um tempo marcado por inúmeras formas de contactar pessoas do outro lado do mundo, vivo no conforto da minha alienação.
"- Oi, sumida!" - Dizia o email.
Susto. Surpresa. Uma certa alegria que me invadia quando nos sentávamos para discutir amenidades na época da graduação.
Trocamos telefone. Nos falamos longamente. Deliciosamente.
"- Lembra-se da Fulana?" - risos hoje. Muitos risos.
A Fulana foi uma professora que nos constrangeu em uma aula na faculdade. Com poucas palavras fez com que toda a turma nos olhasse como se fôssemos "estranhas" àquele mundo. E éramos.
A Fulana era o tipo de profissional útil. Ensinou-nos duramente o que não deveríamos fazer com nossos alunos. Nunca. 
"- Se fosse hoje, ela seria processada por mim." - eu disse.
"- Por mim também."
Mas no fundo sabemos que não faríamos isso naqueles tempos, nem que os direitos fossem outros, como hoje. O problema era maior que o comentário da Fulana. Éramos pobres. Desejosas de mundo sem a sombra da família que ainda nos assombrava. E sim, amedrontadas. Tínhamos medo de nós mesmas. Calávamo-nos quando desejávamos gritar, porque talvez o grito pudesse nos sufocar mais que o silêncio.
Para não morrermos em nós, permitíamos os desabafos uma à outra. Segurávamos nossas mãos. E só.
O que eu poderia dizer mais da Fulana? Muito para me eximir da culpa. Mas não posso. Não sou vítima de ninguém e de nada. Sempre estive no lugar que quis. Fiz o que desejei, nas possibilidades.
Não aprendi com a Fulana a não valorizar as pessoas que me apoiaram quando mais precisei. E aprendi.
Tento dizer a mim mesma que é porque se passou muito tempo, somos outras pessoas, mudamos muito. Temos outra vida...
Há dias estou tentando me isentar dessa maldita culpa, mas não consigo. Porque enfiei os olhos e as mãos aqui dentro desejando encontrar o motivo de eu ser displicente assim, e o que encontrei? Não foi a mágoa da Fulana.
Foi meu Ego. Maldito!!!





domingo, 3 de julho de 2016

LIVRO INVADIDO

Era só uma lagartixa.
Um bebê de lagartixa. 
Quando peguei o livro, ela estava passeando por ele. 
Joguei-o no chão com a invasora, que caiu desesperada. Senti asco. 
Tenho ojeriza a qualquer bicho rastejante.
Pensei em matá-la para nunca mais se atrever a tentar decodificar as escritas.
Mudei de ideia repentinamente enxergando-a como um bebê.
Desprotegida, me olhava com pavor. Ou seria rancor?
Teria nojo de humanos?
Pareço ter notado certo desprezo naquele olhar.
Desprezo por mim que sou dona do espaço no qual ela passeou?
Enquanto matutava sobre o destino da pequena, 
esta se embrenhou pelos outros livros do mesmo lugar.
Em breve a reencontrarei no meio deles. 
Mas corro o risco de que ela esteja maior e tenha lido muito até isso acontecer...
E se a pequena me convencer de que os humanos é que são nojentos e não ela?
Bem provável isso acontecer depois das leituras e dos argumentos.
Se bem que não precisará de muitos...



sábado, 2 de julho de 2016

NARRADORES NÃO CONFIÁVEIS

Eu havia lido e estudado o romance Do Fundo do Poço se Vê a Lua, de Joca Reiners Terron. 
A narrativa trata de uma transexual cheia de conflitos como todo ser humano é. Em primeira pessoa, ela quase passa como narradora confiável, não fosse o fato de ter vivido quase vinte anos desmemoriada. 
Li agora e penso em estudar o último romance do mesmo autor A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves. Trata-se de outro narrador em primeira pessoa, um escrivão de polícia insone. 
Como acreditar em uma pessoa sem descanso? 
Narradores não confiáveis, devo admitir, são intrigantes porque nos põem às turras com nossas próprias histórias. Fazem-nos duvidar de nós.
Como acreditar em alguém que aqui afirma ter lido dois romances dos quais desconfia? Terá lido alguma resenha e declara ter formado uma opinião sobre o romance todo?
Não sei! Eu desconfio...
"De omnibus dubitandum!" 


A INCONSTÂNCIA DAS COISAS DO MUNDO - GREGÓRIO DE MATOS

Nasce o Sol e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se a tristeza,

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza.
A firmeza somente na incostância.

Gregório de Matos

domingo, 26 de junho de 2016

SIMULACRO

Vá embora com sua verdade e seus asseclas.
Nada do meu mundo lhe pertence.
Minhas mentiras são mais confiáveis,
Do que os fatos que supõe autênticos.

Transpus os muros encontrados.
A pedra de Sísifo não rolou.

Flores uma vez colhidas não renascem.
Engasgue-se, pois, com seu ódio.

Porque o risco de ser simulacro
Corre-se todos os dias.
E somos. 

sábado, 25 de junho de 2016

O EU EM MIM

Quem sou eu com você?
E nos sonhos? E no amanhecer?

Quem sou eu em família?
E à noite? E de dia?

Quem sou eu quando calo,
De indignação? E se falo?

O que sou para os amigos?
E os transeuntes? E os amantes?

Quem sou eu despido de alma?
E no súbito da raiva? E na calma?

Quem sou eu comigo?
E com você? E sem nós?

Eu não sou eu. Não só.
Eu sou muitos. Inúmeros.

Tantos, que não se acharam.
E todos os dias tornam-se pó.
Viva aos mestres tantos!!!
Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Mia Couto...

AMAR - AMARO - DRUMMOND

Por que amou por que amou 
se sabia 
p r o i b i d o  p a s s e a r  s e n t i m e n t o s 
ternos ou desesperados 
nesse museu do pardo indiferente 
me diga: mas por que 
amar sofrer talvez como se morre 
de varíola voluntária vágula evidente?
ah PORQUE AMOU 
e se queimou 
todo por dentro por fora nos cantos nos ecos 
lúgubres de você mesm (o, a) 
irm(ã,o) retrato espéculo por que amou? 
se era para 
ou era por 
como se entretanto todavia 
toda via mas toda vida 
é indagação do achado e aguda espostejação 
da carne do conhecimento, ora veja 
permita cavalheir(o,a) 
amig(o,a) me releve 
este malestar 
cantarino escarninho piedoso 
este querer consolar sem muita convicção 
o que é inconsolável de ofício 
a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima 
a vida também 
tudo também 
mas o amor car (o,a) colega este não consola nunca de núncaras.

(Carlos Drummond de Andrade)

ANÓDINO

Em que medida
A ausência de perspectiva
Fez-te enveredar por um mundo vazio de formas?

O que queres mais?
Eis o sincretismo que sonhaste.
Fundiu a nossa dor tão distinta.
Mas possuíste só a tua.

De todas as vezes que partiste,
Essa foi a única que voltaste só para ti.

E só, penetraste no teu mundo oco de vida.

domingo, 12 de junho de 2016

OS NINGUÉNS - EDUARDO GALEANO

As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chova ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não têm cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.



sábado, 11 de junho de 2016

POESIA DE HILDA HILST

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.