Estava lá o milagre da poesia.
O sol procurando espaço entre as nuvens.
Plantação a sumir de vista.
Rodovia.
A tarde a espreitar.
O pequeno aeroplano cumprindo sua função.
Voos rasantes nas plantações.
Chegou a ser poética a cena,
Não fosse a morte anunciada
No conteúdo espalhado pelo ar.
sexta-feira, 24 de maio de 2019
SEM RISO
dói rir.
riso raso
riso nato
riso puro
riso sem rito
falho riso
riso de fato
sem máscaras.
onde?
o riso foi-se com a lamacenta graça.
preparada na ponta da agulha
a bala do riso
sem desejos, sem laços,
nenhum domínio
nem juízo.
sem ódio, sem ópio,
droga nenhuma
sequer pensamentos...
só isso.
riso raso
riso nato
riso puro
riso sem rito
falho riso
riso de fato
sem máscaras.
onde?
o riso foi-se com a lamacenta graça.
preparada na ponta da agulha
a bala do riso
sem desejos, sem laços,
nenhum domínio
nem juízo.
sem ódio, sem ópio,
droga nenhuma
sequer pensamentos...
só isso.
INTERMITÊNCIAS
E há os hiatos.
Os interstícios aí estão.
Que meios de preenchê-los?
Fuga. Sem saída.
Nada a declarar,
Senão o vácuo das vidas vazias
Transeuntes, nauseabundas...
Os interstícios aí estão.
Que meios de preenchê-los?
Fuga. Sem saída.
Nada a declarar,
Senão o vácuo das vidas vazias
Transeuntes, nauseabundas...
quarta-feira, 19 de dezembro de 2018
HÁ TEMPO
Há tempos.
Há tempo de sair
E de chegar.
Encontro
E despedida.
Há tempo
De gritar
E de calar.
Tempo de repousar
Ou caminhar.
Tempo de ser
Ou de apenas estar.
Tempo de saber-se
E de estranhar a si mesmo.
E há o tempo de ansiar
E rejeitar.
Rejeitar o que não cabe mais
Nas caixas, fora delas
O que se crê normal.
CALAR-SE
Cale-se.
Ouça o que sua mente tem a dizer.
Saia dos outros para adentrar em si mesmo.
Só é possível com leveza...
Nada deve ser tão pesado
Que não lhe permita
Ser-se
Entender-se
Aceitar-se
Sonhar-se...
Cessem-se todos os barulhos.
Preciso ouvir-me.
Calo-me...
........................................................................................................................................
Ouça o que sua mente tem a dizer.
Saia dos outros para adentrar em si mesmo.
Só é possível com leveza...
Nada deve ser tão pesado
Que não lhe permita
Ser-se
Entender-se
Aceitar-se
Sonhar-se...
Cessem-se todos os barulhos.
Preciso ouvir-me.
Calo-me...
........................................................................................................................................
terça-feira, 2 de outubro de 2018
REQUISITOS PARA SER UMA PESSOA "NORMAL"
Ter família;
Trabalhar;
Ser sociável;
Contrair matrimônio;
Permitir-se somente o legalizado;
Seguir regras;
Encabestrar-se;
Procriar;
Crer;
Alienar-se;
Cumprir deveres;
Não questionar direitos;
Não falar tudo o que pensa;
Andar com a massa;
Virar massa;
Ser massa;
Deixar que roubem todos os sonhos;
Morrer.
Trabalhar;
Ser sociável;
Contrair matrimônio;
Permitir-se somente o legalizado;
Seguir regras;
Encabestrar-se;
Procriar;
Crer;
Alienar-se;
Cumprir deveres;
Não questionar direitos;
Não falar tudo o que pensa;
Andar com a massa;
Virar massa;
Ser massa;
Deixar que roubem todos os sonhos;
Morrer.
terça-feira, 28 de agosto de 2018
QUE POSSA A VIDA...
Que a vida me devolva...
A esperança na humanidade,
A crença na sociedade
A utopia na educação,
O poder imaginário da oração,
O ânimo para a luta,
O prazer da labuta,
A gentileza com o próximo,
O direito de viver no ócio,
As ideias transformadoras de outrora,
O desejo de apreciar a aurora.
Que a vida de mim leve...
A fobia apavorante do futuro,
O desejo de eternizar o escuro,
As memórias tristes que não se apagam,
A fuga de mãos que afagam,
Os sintomas da desesperança,
A descrença em alianças,
O amargo da palavra implacável,
O fel do discurso imutável,
O desassossego que antecede a manhã,
Todos os medos e a febre terçã,
O direito de escolher a melhor sorte,
E decidir o dia e hora da minha morte.
A esperança na humanidade,
A crença na sociedade
A utopia na educação,
O poder imaginário da oração,
O ânimo para a luta,
O prazer da labuta,
A gentileza com o próximo,
O direito de viver no ócio,
As ideias transformadoras de outrora,
O desejo de apreciar a aurora.
Que a vida de mim leve...
A fobia apavorante do futuro,
O desejo de eternizar o escuro,
As memórias tristes que não se apagam,
A fuga de mãos que afagam,
Os sintomas da desesperança,
A descrença em alianças,
O amargo da palavra implacável,
O fel do discurso imutável,
O desassossego que antecede a manhã,
Todos os medos e a febre terçã,
O direito de escolher a melhor sorte,
E decidir o dia e hora da minha morte.
segunda-feira, 30 de julho de 2018
INSIGNIFICÂNCIA
Meu pensamento é um sarcófago...
Lacrado como deve ser,
Guarda a mumificação de sonhos meus.
Não haverá chuva ou lágrima que os traga de volta.
Caminho interdito, pois sem deus
Nada caberá ao futuro.
Sem soberania acima do humano
Descobre-se a fragilidade.
A insignificância do ser.
O vazio. O zero.
Lacrado como deve ser,
Guarda a mumificação de sonhos meus.
Não haverá chuva ou lágrima que os traga de volta.
Caminho interdito, pois sem deus
Nada caberá ao futuro.
Sem soberania acima do humano
Descobre-se a fragilidade.
A insignificância do ser.
O vazio. O zero.
sábado, 10 de março de 2018
PALAVRAS AO VENTO
"As palavras têm valor, o povo acredita nas palavras como deuses. Mas aprendi que as palavras só valem quando correspondem ao que se faz na prática."
O NARRADOR - Mayombe - Pepetela
MUDAR O MUNDO
"Queremos transformar o mundo e somos incapazes de nos transformar a nós próprios. Queremos ser livres, fazer a nossa vontade e a todo momento arranjamos desculpas para reprimir os nossos desejos. E o pior é que nos convencemos com as nossas próprias desculpas, deixamos de ser lúcidos. Só covardia." Personagem Sem Medo - MAYOMBE - PEPETELA
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
RETROVISOR
Onde a máquina me leva há tanto e tanto e tanto...
Para ver e ouvir e sentir.
Contudo só se obtém o desprendimento quando há liberdade de si
mesmo
Alguns não conseguem viajar, sobretudo os oprimidos...
Não os escravos do mercado de trabalho,
Mas os oprimidos e opressores de si mesmos
Em nome de um sentimento nauseabundo e decadente.
Viajar requer desapego.
É aprender a deixar com os rastros da máquina
Quaisquer sintomas de realidade que possam ferir.
Despir-se um bocado do seu mundo,
Alçar voo, pegar estrada,
Caminhar novas trilhas
É curar-se de si mesmo.
segunda-feira, 29 de janeiro de 2018
PATACHO
Jamais soube por que sobrevivi, até então.
Nunca encontrei uma explicação para tamanha fortuna do destino comigo.
Naquele ano eu conheceria mais um estado no Nordeste.
Tudo certo para a viagem. Planos aos montes.
Programa a quatro mãos amigas.
Mapa das praias.
Pés atentos à possibilidade da areia.
Ânsia do cheiro do mar.
Mas naquela manhã tudo cessou por alguns segundos.
Esperança mitigando as mentes companheiras.
Nada de mar. Nenhuma brisa. Sonhos dissipados.
Não seria naquele ano a viagem. Nem no outro.
E eu não entendia a carícia do destino em mim.
Por que a vida me quis por mais tempo?
O que havia para ser feito ainda?
Por que fui poupada?
Jamais saberia, se não tivesse ido àquele lugar.
Finalmente, dois longos anos passados...
Quando meus olhos pousaram naquele verde,
Ao sentir o cheiro da brisa. O sol.
Areia sob os pés. Os coqueiros.
Meus olhos descansados na paisagem...
O mar, o sol, a areia, os coqueiros.
Eles de novo e de novo.
E meus olhos e o mar e o sol e a areia e os coqueiros
E os olhos e...
Os olhos assentados ali e a clarividência.
Era só isso: algo no universo me deu a chance.
Eu vivi para ver. Vivi para que meus olhos se deliciassem
Com o espetáculo do mundo:
O paraíso. Eu vi o paraíso.
Agora já posso morrer...
Nunca encontrei uma explicação para tamanha fortuna do destino comigo.
Naquele ano eu conheceria mais um estado no Nordeste.
Tudo certo para a viagem. Planos aos montes.
Programa a quatro mãos amigas.
Mapa das praias.
Pés atentos à possibilidade da areia.
Ânsia do cheiro do mar.
Mas naquela manhã tudo cessou por alguns segundos.
Esperança mitigando as mentes companheiras.
Nada de mar. Nenhuma brisa. Sonhos dissipados.
Não seria naquele ano a viagem. Nem no outro.
E eu não entendia a carícia do destino em mim.
Por que a vida me quis por mais tempo?
O que havia para ser feito ainda?
Por que fui poupada?
Jamais saberia, se não tivesse ido àquele lugar.
Finalmente, dois longos anos passados...
Quando meus olhos pousaram naquele verde,
Ao sentir o cheiro da brisa. O sol.
Areia sob os pés. Os coqueiros.
Meus olhos descansados na paisagem...
O mar, o sol, a areia, os coqueiros.
Eles de novo e de novo.
E meus olhos e o mar e o sol e a areia e os coqueiros
E os olhos e...
Os olhos assentados ali e a clarividência.
Era só isso: algo no universo me deu a chance.
Eu vivi para ver. Vivi para que meus olhos se deliciassem
Com o espetáculo do mundo:
O paraíso. Eu vi o paraíso.
Agora já posso morrer...
DO MAR...
"A imensidão do mar que nada pode modificar
ensinou-me a paciência.
O mar une, o mar estreita, o mar liga.
[...]
eu, ladrão, marinheiro, contrabandista, guerrilheiro,
sempre à margem de tudo
mas não é a praia uma margem?"
Personagem Mautiânvua
MAYOMBE - PEPETELA
Óh, mar, ensina-me a paciência...
PONTUAÇÃO
Escrever é preciso,
Pontuar também.
Escreva, pontue, leia.
Escreva, pontue, leia...
Era isso que queria dizer?
Sim, Não. Não era.
Nunca se diz o que realmente se deseja.
Há sempre algo que permanece enroscado na garganta.
Gritos. Palavrões. Pseudorrazões.
Palavras. Palavras. Palavras.
Vírgulas. Reticências. Pontos finais.
Exclame. Interrogue. Cite.
Cite o que não é seu.
"O problema da solidão
é que não temos a quem mentir."
Mentir para o outro é tantas vezes mais atraente
que mentir a si mesmo.
Mas pontue sempre,
mesmo que com reticências.
Pontue como fazemos com a vida, não raro.
Momentos de pausa.
Assuntos irresolutos.
Tempos de falar. Ou calar-se.
Questionar. Responder.
Admirar-se. Exclamar...
Explicar. Mentir, omitir.
Deixar algo, esquecer... Ou tentar.
Escrever é preciso! Pontuar também.
Pontuar também.
Escreva, pontue, leia.
Escreva, pontue, leia...
Era isso que queria dizer?
Sim, Não. Não era.
Nunca se diz o que realmente se deseja.
Há sempre algo que permanece enroscado na garganta.
Gritos. Palavrões. Pseudorrazões.
Palavras. Palavras. Palavras.
Vírgulas. Reticências. Pontos finais.
Exclame. Interrogue. Cite.
Cite o que não é seu.
"O problema da solidão
é que não temos a quem mentir."
Mentir para o outro é tantas vezes mais atraente
que mentir a si mesmo.
Mas pontue sempre,
mesmo que com reticências.
Pontue como fazemos com a vida, não raro.
Momentos de pausa.
Assuntos irresolutos.
Tempos de falar. Ou calar-se.
Questionar. Responder.
Admirar-se. Exclamar...
Explicar. Mentir, omitir.
Deixar algo, esquecer... Ou tentar.
Escrever é preciso! Pontuar também.
sexta-feira, 6 de outubro de 2017
FUGA
Vamos fugir? - Dissemo-nos um dia.
E houve tanto que empreendeu fuga:
Os sonhos, viagens, estradas, poesia...
Só o que precisava não fugiu:
Você, eu, nós.
E houve tanto que empreendeu fuga:
Os sonhos, viagens, estradas, poesia...
Só o que precisava não fugiu:
Você, eu, nós.
SUAS ASAS
Foi a sua rebeldia disfarçada
que me enfeitiçou.
Não os doces olhos profundos.
Não a melancolia envolvente na sua voz.
Não sua tristeza, nem as poucas alegrias.
Nada foi tão mortal
Quanto meu olhar sobre suas asas.
Descobri então que
"suas asas, amor,
quem deu não fui eu".
Você já chegara pronta para voar.
Secretamente carregou, desde muito,
estampada no peito, não nas costas,
a liberdade que pretendia.
Essa que não tem forma, nem nome,
nem asas atrás.
Suas asas estão na frente,
porque precisa saber sempre
que se vir no espelho,
o quanto é livre.
...E porque traz
tatuadas no peito, asas,
voa. E voou. E voará sempre...
que me enfeitiçou.
Não os doces olhos profundos.
Não a melancolia envolvente na sua voz.
Não sua tristeza, nem as poucas alegrias.
Nada foi tão mortal
Quanto meu olhar sobre suas asas.
Descobri então que
"suas asas, amor,
quem deu não fui eu".
Você já chegara pronta para voar.
Secretamente carregou, desde muito,
estampada no peito, não nas costas,
a liberdade que pretendia.
Essa que não tem forma, nem nome,
nem asas atrás.
Suas asas estão na frente,
porque precisa saber sempre
que se vir no espelho,
o quanto é livre.
...E porque traz
tatuadas no peito, asas,
voa. E voou. E voará sempre...
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
AUSÊNCIA
Perder-se de certos amigos
É despir-se no outono.
Seca a pele
Caem as folhas
Sem flores.
Só a teimosa poeira
Nos recônditos da alma...
É despir-se no outono.
Seca a pele
Caem as folhas
Sem flores.
Só a teimosa poeira
Nos recônditos da alma...
quarta-feira, 21 de junho de 2017
VIAGEM
Boto os pés na incerta estrada
Sem me importar com rumo exato
Abandonei a pesada bússola
Nada parece ser muito sensato.
E quem se importa com cautela?
O meu negro cavalo alado
Desaparece entre nuvens
Domina o céu e o arco-íris
Transpondo pedras e ferrugens.
Não há barulhos em excesso cá dentro.
Sem convicções ou certezas
Tudo é muito incerto nesta breve vida
Ignoramos muito mais que pressupomos conhecer
Uma viagem é sempre um beijo de despedida.
E quem deseja se plantar eternamente em algum canto?
Sem me importar com rumo exato
Abandonei a pesada bússola
Nada parece ser muito sensato.
E quem se importa com cautela?
O meu negro cavalo alado
Desaparece entre nuvens
Domina o céu e o arco-íris
Transpondo pedras e ferrugens.
Não há barulhos em excesso cá dentro.
Sem convicções ou certezas
Tudo é muito incerto nesta breve vida
Ignoramos muito mais que pressupomos conhecer
Uma viagem é sempre um beijo de despedida.
E quem deseja se plantar eternamente em algum canto?
segunda-feira, 22 de maio de 2017
EMBATE
"[...] os sonhos humanos são assim, às vezes pegam em coisas reais e transformam-nas em visões, outras vezes põem o delírio a jogar às escondidas com a realidade, por isso é tão frequente confessarmos que não sabemos a quantas andamos, o sonho a puxar de um lado, a realidade a empurrar do outro, em boa verdade a linha recta só existe na geometria, e ainda assim não passa de uma abstracção."
José Saramago - A CAVERNA (2010) p. 197
MUSEU
Razão reflexiva cotidiana:
Sem dramas, sem mágoas
Nenhuma desculpa.
Vamos nos reinventando todo dia.
No horário melancólico
Da madrugada chuvosa.
Nenhuma canção nostálgica
Há de trazer de volta
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