quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

PRETEXTO

Não posso dar-lhe esperanças,

Portanto, leve de mim a solidão.

Não penso uma vida leve, 

Carregue consigo o que há de bom.


Jamais sonhei além das minhas passadas,

Voe longes distâncias, deseje o cais.

Não transito mais entre humanos,

O silêncio me tragou de maneira voraz.



PERDA


Perdi a poesia...?



Ou ela evadiu-se de mim?





quinta-feira, 21 de outubro de 2021

IRONIA

Que irônica a vida!

Recebe uma, duas, três chances

E ainda assim não se sente completa. 

Por isso a necessidade de sua antagonista,

A irremediável...





quinta-feira, 15 de abril de 2021

EU NÃO CONSIGO RESPIRAR ( I CAN'T BREATHE)

"Faltou oxigênio no pulmão do mundo."
Belíssima metáfora de cujo autor não me recordo.
Nos primeiros dias do ano morriam asfixiados
Aqueles que seriam lembrados como mais um número.

Nada há de especial, só trinta entre milhares...
Nem um fato novo na primeira quinzena de janeiro
A não ser a triste coincidência
Da asfixia no "pulmão do mundo".

Não bastassem outros repugnantes acontecidos,

Não. Os oceanos são o pulmão do mundo.
Assim se foram os trinta de Manaus.
Como se estivessem mergulhados em um oceano.
Faltou-lhes oxigênio para sonhar...



quarta-feira, 7 de abril de 2021

SOMOS TODOS SONHOS?

Nascemos feitos de carne, não de esperança.

Pequeno pedaço de carne, sem consciência.

Esperança de outros.

Outros que não conseguiram...

E...?

Sonham para "aquilo"

Os sonhos todos que não puderam sonhar.



segunda-feira, 5 de abril de 2021

SEM ANTÍDOTOS

Óbito. Lápide.

Túmulo. Cárcere.

Ásperos sábados.


Hóspedes pandêmicos.

Córregos de lágrimas.

Íntimas catástrofes.

Cânticos fúnebres.

Pânico efêmero.

Rápido relâmpago.

Súbito trânsito.

Última sátira.


Sólidas proparoxítonas.


Não cabem nesse poema  

As dores todas.

Os sonhos idos.

Os caixões lacrados.

Enterros noturnos.

Não cabem.





quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

SEM NOVIDADES

Não! Não há nada de novo.

Os mesmos riscos

Mesmos sons.


Só aquele ninho é novo,

Os biquinhos erguidos abertos

A esperarem o alimento que demora.

Há esperança nos filhotes.


Não há monstros para eles.


Apenas aqui ainda são os mesmos monstros.

Cá dentro.



domingo, 25 de outubro de 2020

CURA

Não me curo de mim.

Barbitúricos ou não.

Sem susto ou comoção.

Nada de importante...


Tempos duros,

Chão liso,

Tombos à espreita.


Sons de vazio.

Viver pela metade.

Ausência de planos,

Profundidade? Apenas no vácuo.

Sem vínculos, 

Sem filtros...


Falta-me pertencimento a mim,

Ao mundo, ao lar.

À deriva, em um barco que não é meu.

Marca nenhuma.


Sem respostas,

Pois faltam perguntas.





domingo, 27 de setembro de 2020

MEDOS TODOS

Nossos medos são outros.

Você tem medo da morte, eu, da vida.

Não gosto da palavra sorte, você, do vocábulo azar.


Sonho em ficar livre.

Você deseja proteção.


Ninguém veio para viver o outro.

Tampouco o medo alheio.

Ser livre e só é a única maldição que nos cabe.





sexta-feira, 11 de setembro de 2020

PULSO

 Acordei novamente...

Os sinais de vida pulsam ainda nesse corpo cansado.

Notícias chegam desgraçadamente.

As coisas não andam bem lá fora.

Aqui dentro também não.

Que fazer em um mundo sem boas metamorfoses?

Nada, além de sobreviver 

E suportar essa profunda melancolia...

Seguirei até o fim com saudosismo?

Cruel destino esse,

De sentir saudades do que nunca foi de fato.

Depressão, o que é?Psicólogo Online 10


quarta-feira, 9 de setembro de 2020

CAIXA

Não, eu não caibo mais.

Nas tradicionais reuniões familiares,
No trabalho enfadonho,
Nem nas roupas de tantos "amigos".

Não encontro melodia em canções alheias,
Sequer na minha encontro...

Desânimo de gente.
Sem desejo algum de troca.

Ainda consigo suportar a minha companhia.
Ainda... Sob o argumento de que não posso me livrar de mim.

Ou posso?




DESALENTO

Que fazer com a desesperança...

Aquele tipo de sonho que escorre sorrateiramente entre os dedos?

Como manter a sanidade? Não há.

O que existe é o paradoxo: ser não ser.


Houve dias em que morri.

Nasci novamente na outra manhã,

Feito um zumbi sorumbático

Daqueles que nada pretendem

Além de regressar ao túmulo.


É possível voltar sem dor?

Nada do que nos chega vem sem peso.

O amor até. 


Por isso, desesperança. 

Dessarte, melancolia.

Portanto, vontade de fugir.

Escapar dessa vida fria.

Morte e vida, um contínuo espaço/ tempo


domingo, 16 de agosto de 2020

VOYEUR

 Hoje pela manhã, durante o banho, senti um par de olhos me observando.

Assustei-me de início, mas logo pensei: "Um voyeur...", e continuei sossegada o delicioso afazer. 

Eu percebia os meneios de cabeça daquele curioso.

Lá de cima, seus olhos estavam petrificados em cada movimento meu. 

Minha nudez revelava, com força, sua indiscrição.

Entretanto, pela pequena janela, eu também não o perdia de vista. 

As garras, fixas em uma madeira do outro telhado, frequentemente mudavam de posição.

E assim continuamos nos olhando...

Depois de alguns minutos nesse doce segredo, alimentada sua curiosidade, resolveu partir.

Já havia visto o que queria.

Bateu suas pequenas asas e se foi livremente procurar outros corpos para observar.











terça-feira, 21 de julho de 2020

SANGUE E POESIA

Não posso mudar você,
Ainda que fosse esse
O único meio para o reencontro do fim.

Sequer pude mudar a mim mesma.

Nada que é meu
Envaidece ou encanta mortais.

Há um metal cravado no peito.
Estaca que fere a cada movimento mais brusco.
Sangra. E perco subitamente o líquido.
Escorre, umedecendo a alma.

Trago o gosto amargo
Do fluido espesso avermelhado
Que mancha o corpo todo.

E sorvo, assim, todo dia o fel
Que a vida me propõe.



O que fazer quando se está perdido na vida e não se sabe o próximo ...





sábado, 18 de julho de 2020

O BEIJO DA MORTE

A morte me beijou.

Sôfrega, tocou meus lábios.
Aproveitou-se da minha languidez.

Antes que se afastasse,
Cuspi com repulsa sua saliva putrefata.
Caiu aos seus pés.

Fitou-me lepidamente e saiu 
sem esboçar sentimento.

Não ousará vir me beijar de novo.
Não sem avisar.
Detesto quem me rouba.

Quero estar pronta para recebê-la quando se anunciar...
Caso ainda esteja aqui.



Um belo beijo da morte | Bazinga!


SEM DESTINATÁRIO

Além do sonho que corre em nossas veias,
Bebamos da vida!

Nos corredores de ambas as mentes,
Entre um pensamento e outro,
Quase como uma alma
Ocupando um corpo estranho...
Assim nos habitamos.

Necessário é o agora.
Um amanhã pode não existir,
Caso o meteoro nos atinja novamente.

Eu não quero me despir de você.
Não de novo.

Preciso escrever anônima e secretamente
Algo que não vá dar pouso a outros olhos.
Sem remetente ou destinatário,
Endereço algum o receberá, 
Que não seja a garrafa enterrada 
no fundo do quintal.

Porque necessito falar,
E é sabido que
Tocar com palavras
É o toque mais íntimo do ser.

Entretanto, fogem-me os vocábulos.
O não dito. O reprimido. O indizível.  

Calar dói mais do que falar.
Mas, não raro, é necessário.




Discursos sem ações são palavras ao vento - Igreja Batista Barcelona


domingo, 28 de junho de 2020

FANTASMAS

E quando outras mãos pousarem nas suas,
Olhos estranhos encontrarem os seus,
Pecados nossos serão perdoados
Porque nada fomos, senão fantasmas...




quinta-feira, 12 de março de 2020

A MORTE DO EU LÍRICO

Acho que vou morrer...
E se tal acontecer,
(ao contrário de Nietzsche)
não me importo mais com bispos,
vigários ou pastores de alienadas ovelhas.
Dane-se o pós-morte.
Não poderei mais me defender de monstros!

Que espumem suas babas nojentas
A esbravejar o nome de seu deus parcial.
Diante de minha esquife poderão se juntar,
(e talvez se juntem)
Com suas crenças tantas em um deus
Que serve a cada um a sua vontade.

Nada há a ser temido mais.
Nem honradez, nem orgulho próprio,
Sequer poesia haverá.
Tudo em decomposição no cérebro.

O que terá restado do que fui um dia?
Coisa alguma, senão pedaços de carne putrefata
Que alimentarão vermes,
Esses associados aos outros
Que ainda podem proferir 
seus nefastos sermões.





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segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

O DUPLO

Cuide bem de mim...
Cuide-se-me!
Pois é só o que temos de nosso.

E se quiser fugir,
Não haverá lugar que possamos ir.
Nada há em canto nenhum
Para esconder de nós mesmas
Nossas próprias máscaras.

A sua, a minha...

Sua aparência, minha hipocrisia.
Minhas dúvidas, suas certezas.
Minhas descrenças todas,
Seus créditos conspiratórios.

Não somos mais nada.
Impossível essa parceria.

Tal assunto deverá ser 
tratado por um terceiro,
Jamais conosco mesmas.

Já não entendo mais nada.
De desentendida me farei.
Eu sou você, 
Mas não estou certa de que
Um dia você serei eu.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

SEM PERDÃO

"Não me perdoo por ter nascido. é como se eu, quando me infiltrei no mundo, tivesse profanado um mistério, violado uma obrigação de alto nível."  E. CIORAN (citação no livro PÓS DEUS, de STEVE SLOTERDIJK, p. 95)