segunda-feira, 31 de janeiro de 2022
ACESSO
quinta-feira, 27 de janeiro de 2022
DIGITAL
Dirigi-me ao banco para sacar o resto que ainda havia. Estava quase vazio. Uns dois caixas eletrônicos ocupados e eu. Fiquei a matutar que a crise no país estava realmente fora de controle. Difícil não encontrar fila no banco, mas havia tempo eu não o frequentava, pois meus bolsos também reconheceram a crise.
Entrou um homem alto, barba cerrada, vestido em um esporte fino impecável. Nossos olhares se cruzaram, era um jovem rapaz, notei. Mas rapidamente voltei o olhar para o caixa, na esperança de que esse não me trairia e cuspiria algumas notas que me garantissem a noite.
O homem pôs-se diante do caixa ao lado. Percebi que estava com certa dificuldade de manusear o cartão, mas não ofereci ajuda. Ele que pedisse, se quisesse. Um rapaz tão jovem e desconhecido dessas tecnologias? Estranhei.
Mas creio que logo se entendeu com a máquina, pois quando me virei para sair, deparei-me com a cena mais grotesca já contemplada pelos meus olhos. Estaquei apavorada, sem voz, sem chão, sem rumo, sem ideia do que aquilo significava. Ele segurava um dedo, que não era seu, no leitor digital do caixa.
Olhou-me indiscretamente. Viu minha estupefação. Mostrou-me o dedo ensanguentado de alguém e, com um risinho de canto, disse-me apenas:
-- Ela não pôde vir...
quarta-feira, 26 de janeiro de 2022
quinta-feira, 21 de outubro de 2021
IRONIA
Que irônica a vida!
Recebe uma, duas, três chances
E ainda assim não se sente completa.
Por isso a necessidade de sua antagonista,
A irremediável...
quinta-feira, 15 de abril de 2021
EU NÃO CONSIGO RESPIRAR ( I CAN'T BREATHE)
Belíssima metáfora de cujo autor não me recordo.
Nos primeiros dias do ano morriam asfixiados
Aqueles que seriam lembrados como mais um número.
Nada há de especial, só trinta entre milhares...
Nem um fato novo na primeira quinzena de janeiro
A não ser a triste coincidência
Da asfixia no "pulmão do mundo".
quarta-feira, 7 de abril de 2021
SOMOS TODOS SONHOS?
Nascemos feitos de carne, não de esperança.
Pequeno pedaço de carne, sem consciência.
Esperança de outros.
Outros que não conseguiram...
E...?
Sonham para "aquilo"
Os sonhos todos que não puderam sonhar.
segunda-feira, 5 de abril de 2021
SEM ANTÍDOTOS
Óbito. Lápide.
Túmulo. Cárcere.
Ásperos sábados.
Hóspedes pandêmicos.
Córregos de lágrimas.
Íntimas catástrofes.
Cânticos fúnebres.
Pânico efêmero.
Rápido relâmpago.
Súbito trânsito.
Última sátira.
Sólidas proparoxítonas.
Não cabem nesse poema
As dores todas.
Os sonhos idos.
Os caixões lacrados.
Enterros noturnos.
Não cabem.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021
SEM NOVIDADES
Não! Não há nada de novo.
Os mesmos riscos
Mesmos sons.
Só aquele ninho é novo,
Os biquinhos erguidos abertos
A esperarem o alimento que demora.
Há esperança nos filhotes.
Não há monstros para eles.
Apenas aqui ainda são os mesmos monstros.
Cá dentro.
domingo, 25 de outubro de 2020
CURA
Não me curo de mim.
Barbitúricos ou não.
Sem susto ou comoção.
Nada de importante...
Tempos duros,
Chão liso,
Tombos à espreita.
Sons de vazio.
Viver pela metade.
Ausência de planos,
Profundidade? Apenas no vácuo.
Sem vínculos,
Sem filtros...
Falta-me pertencimento a mim,
Ao mundo, ao lar.
À deriva, em um barco que não é meu.
Marca nenhuma.
Sem respostas,
Pois faltam perguntas.
domingo, 27 de setembro de 2020
MEDOS TODOS
Nossos medos são outros.
Você tem medo da morte, eu, da vida.
Não gosto da palavra sorte, você, do vocábulo azar.
Sonho em ficar livre.
Você deseja proteção.
Ninguém veio para viver o outro.
Tampouco o medo alheio.
Ser livre e só é a única maldição que nos cabe.
sexta-feira, 11 de setembro de 2020
PULSO
Acordei novamente...
Os sinais de vida pulsam ainda nesse corpo cansado.
Notícias chegam desgraçadamente.
As coisas não andam bem lá fora.
Aqui dentro também não.
Que fazer em um mundo sem boas metamorfoses?
Nada, além de sobreviver
E suportar essa profunda melancolia...
Seguirei até o fim com saudosismo?
Cruel destino esse,
De sentir saudades do que nunca foi de fato.
quarta-feira, 9 de setembro de 2020
CAIXA
Não, eu não caibo mais.
Nas tradicionais reuniões familiares,No trabalho enfadonho,
Nem nas roupas de tantos "amigos".
Não encontro melodia em canções alheias,
Sequer na minha encontro...
Desânimo de gente.
Sem desejo algum de troca.
DESALENTO
Que fazer com a desesperança...
Aquele tipo de sonho que escorre sorrateiramente entre os dedos?
Como manter a sanidade? Não há.
O que existe é o paradoxo: ser não ser.
Houve dias em que morri.
Nasci novamente na outra manhã,
Feito um zumbi sorumbático
Daqueles que nada pretendem
Além de regressar ao túmulo.
É possível voltar sem dor?
Nada do que nos chega vem sem peso.
O amor até.
Por isso, desesperança.
Dessarte, melancolia.
Portanto, vontade de fugir.
Escapar dessa vida fria.
domingo, 16 de agosto de 2020
VOYEUR
Hoje pela manhã, durante o banho, senti um par de olhos me observando.
Assustei-me de início, mas logo pensei: "Um voyeur...", e continuei sossegada o delicioso afazer.
Eu percebia os meneios de cabeça daquele curioso.
Lá de cima, seus olhos estavam petrificados em cada movimento meu.
Minha nudez revelava, com força, sua indiscrição.
Entretanto, pela pequena janela, eu também não o perdia de vista.
As garras, fixas em uma madeira do outro telhado, frequentemente mudavam de posição.
E assim continuamos nos olhando...
Depois de alguns minutos nesse doce segredo, alimentada sua curiosidade, resolveu partir.
Já havia visto o que queria.
Bateu suas pequenas asas e se foi livremente procurar outros corpos para observar.
terça-feira, 21 de julho de 2020
SANGUE E POESIA
Ainda que fosse esse
O único meio para o reencontro do fim.
Sequer pude mudar a mim mesma.
Nada que é meu
Envaidece ou encanta mortais.
Há um metal cravado no peito.
Estaca que fere a cada movimento mais brusco.
Sangra. E perco subitamente o líquido.
Escorre, umedecendo a alma.
Trago o gosto amargo
Do fluido espesso avermelhado
Que mancha o corpo todo.
E sorvo, assim, todo dia o fel
Que a vida me propõe.
sábado, 18 de julho de 2020
O BEIJO DA MORTE
Sôfrega, tocou meus lábios.
Aproveitou-se da minha languidez.
Antes que se afastasse,
Cuspi com repulsa sua saliva putrefata.
Caiu aos seus pés.
Fitou-me lepidamente e saiu
sem esboçar sentimento.
Não ousará vir me beijar de novo.
Não sem avisar.
Detesto quem me rouba.
Quero estar pronta para recebê-la quando se anunciar...
Caso ainda esteja aqui.
SEM DESTINATÁRIO
Bebamos da vida!
Nos corredores de ambas as mentes,
Entre um pensamento e outro,
Quase como uma alma
Ocupando um corpo estranho...
Assim nos habitamos.
Necessário é o agora.
Um amanhã pode não existir,
Caso o meteoro nos atinja novamente.
Eu não quero me despir de você.
Não de novo.
Preciso escrever anônima e secretamente
Algo que não vá dar pouso a outros olhos.
Sem remetente ou destinatário,
Endereço algum o receberá,
Que não seja a garrafa enterrada
no fundo do quintal.
Porque necessito falar,
E é sabido que
Tocar com palavras
É o toque mais íntimo do ser.
Entretanto, fogem-me os vocábulos.
O não dito. O reprimido. O indizível.
Calar dói mais do que falar.
Mas, não raro, é necessário.
domingo, 28 de junho de 2020
FANTASMAS
Olhos estranhos encontrarem os seus,
Pecados nossos serão perdoados
Porque nada fomos, senão fantasmas...
quinta-feira, 12 de março de 2020
A MORTE DO EU LÍRICO
E se tal acontecer,
não me importo mais com bispos,
vigários ou pastores de alienadas ovelhas.
Dane-se o pós-morte.
Não poderei mais me defender de monstros!
Que espumem suas babas nojentas
A esbravejar o nome de seu deus parcial.
Diante de minha esquife poderão se juntar,
(e talvez se juntem)
Com suas crenças tantas em um deus
Que serve a cada um a sua vontade.
Nada há a ser temido mais.
Nem honradez, nem orgulho próprio,
Sequer poesia haverá.
Tudo em decomposição no cérebro.
O que terá restado do que fui um dia?
Coisa alguma, senão pedaços de carne putrefata
Que alimentarão vermes,
Esses associados aos outros
Que ainda podem proferir




