sábado, 5 de setembro de 2009
A VIAGEM (Dedicado a uma criatura "pra lá" de especial...De outro mundo: Sandra)
QUE TEMPO?
SONÂMBULO (Conto dedicado a meu irmão mais velho)
DESIRE
COMO NÃO MASSACRAR TODA ESSA NATUREZA INÚTIL?
DE QUE MODO FUGIMOS DE NOSSOS FÚTEIS INSTINTOS?
A HORA É TARDE E OS DESEJOS, MUITOS.
DESEJO DE NÃO PARAR MAIS DE FAZER AMOR COM AS PALAVRAS...
DE SER POSSUÍDA POR TODAS ARDENTEMENTE,
DE EMPRENHAR-ME DOCEMENTE DE FETOS VERNÁCULOS
DE SENTIR TODO MEU CORPO TOMADO POR VOCÁBULOS ANTES DESCONHECIDOS
E DEPOIS DAR À LUZ, NUM PARTO SUAVE E SERENO COMO A MORTE,
A INFINITAS IDÉIAS JOGADAS NOS PAPÉIS,
NAS PAREDES,
NAS NUVENS,
NOS MUROS,
NA REESCRITURA DA BÍBLIA,
ENFIM, NA VIDA,
PORÉM A HORA É IDA
E O ABORTO ESTÁ À PORTA NOVAMENTE,
TÃO FORTE QUANTO O DESEJO QUE TIVÉRAMOS NO ATO DA CONCEPÇÃO.
Roze - 29.03.2008
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Esfinge
Morte
Tempo
Crônica da Morte

Toda vez que é noticiada a morte de alguém, muitos põem-se, naturalmente, a refletir sobre os muitos mistérios que acompanham a caveira empunhando uma foice.
Foi no velório de uma colega de trabalho, não muito íntima minha, que pude sossegadamente analisar alguns acontecimentos esquisitos que nos trazem esses momentos fúnebres.
Sentada numa cadeira fria da capela mortuária, a certa distância do caixão, para não correr riscos de olhar de vez em quando para a figura ida que ali se punha na horizontal, observei os transeuntes. Familiares chorando, amigos entristecidos e condolentes, conhecidos, como eu, sem expressão alguma que denunciasse qualquer tipo de sentimento e os curiosos, aqueles que passam por perto, veem muitos carros e pessoas aglomeradas e chegam logo para saber quem foi a nova vítima da agourenta, e por quais razões está lá, gelado sobre os suportes de ferro, aquele ser.
Esses últimos são os incumbidos de espalhar a todos os cantos, tudo sobre a situação do desencarnado. Qual era a idade, com quem estava casado, onde trabalhava, porque se deu a “passagem”.... Enfim, esses às vezes informam demais a outros, que logo à frente deformam a história e acabam por gerar confusões, principalmente quando a cidade é pequena e muitos conhecem o morto. O que há de sabor nesse ato de passar adiante tão ruim notícia¿ Por que o ser humano sente prazer em lidar com emoções tão ruins¿ De onde vem essa gana de ser o primeiro a dar a grande nova, mesmo que seja uma nova tão mórbida¿
E quem está ali, estático dentro daquela caixa que doravante será sua cama, nada tem de participação na vida desses seres que noticiam sua partida. Mas eu observei aqueles lábios pálidos dos que pensam estar vivos, balbuciando coisas nos ouvidos alheios, o que não pareciam ser orações para encaminhar a alma da cidadã deitada ali. Cheguei até a ouvir alguns assuntos irrelevantes nesse momento, como o preço do grão que move o município em que moramos.
Depois de tanto olhar o mundo ao meu redor naqueles longos momentos, lembrei-me ainda de um detalhe realmente importante: aquela ex-colega de trabalho seria lembrada ali e talvez por mais alguns dias, meses, quem sabe, pelas pessoas mais próximas, mas a cidade a esquecerá amanhã. O que ela fez de importante para ajudar a bom andamento do trabalho burocrático no município não será lembrado, pois outra pessoa já estará ocupando seu lugar no emprego, e talvez desempenhe tão bem quanto ou até inove as atividades naquela função. Ela realmente é dispensável, como eu, como você, como todo ser humano que passa por esse planeta e não deixa seu nome carimbado nos livros didáticos. Como toda gente “pequena”, humilde , que desempenha sua função sem algum ato de heroísmo digno, aos olhos do povo, de reconhecimento público. E que todos sabemos que não deixa de ser herói por isso, pois um dia certamente foi um grande herói em vida, por ter sido pai, ou mãe, ou bom filho, ou bom amigo, ou o grande amor de alguém, ou por ter ajudado um idoso a atravessar a rua, ou cedeu sua cadeira no ônibus lotado para a mulher q trazia uma vida no ventre, ou por ter dado o ombro para alguém chorar pela morte de um ente querido Todos fomos heróis um dia, porém seremos esquecidos, assim como essa senhora de hoje e tantas outras pessoas que se foram em milhões de cidades e situações diferentes nesse mesmo momento.
Ela, a “passageira” de hoje, seremos nós amanhã. Sem vida, sem identidade em outro plano, sem história, sem nome nos livros, sem coisa nenhuma, que não seja a incerteza do que é que vem depois daquilo que muitos julgam ser o descanso eterno, ela, a “incombatível”.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Começo a conhecer-me. Não existo

Começo a conhecer-me. Não existo
Fernando Pessoa
( Álvaro de Campos )
Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
ÁLIBI

Se eu soubesse da existência do Césio
Teria me mudado da Terra
Se eu notasse em sonhos, destroços,
Não teria participado dele.
Se eu ouvisse o silêncio dos surdos,
Teria gritado com eles.
Se eu enxergasse com os olhos de um cego,
Teria visto “Deus” no trono.
Se eu não conhecesse o Homem,
Teria crido nos construtores da paz.
Se eu acreditasse na vida,
Não teria tentado dar fim à minha.
Se eu ganhasse afeto,
Não teria deixado essas palavras com fel.
Se eu soubesse...Ah, se eu soubesse...
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
O VOO

__ Eu os abençoo porque sei que vocês leem e acreditam na bíblia. – disse o padre, lá do altar.
Nós sabíamos que ele sabia que o que dizia era mentira, eu não estava envolvido nesse pronome (vocês), mas continuou:
__ Sei que vocês creem no que não veem, por isso estão aqui.
Naquele momento, senti uma espécie de enjoo. O padre certamente tinha conhecimento de que eu era um antirreligioso há muito tempo. Mas ele insistia em me fazer pensar que ele não percebia isso. E que tipo de epopeia eu escreveria indo de novo à igreja?
Achei que o padre estava praticando um ato desumano, me olhando intensamente, o que fazia com que a assembleia toda se fixasse em mim, como seu eu fosse um homem da pré-história, ou então um paranoico que estava ali para receber o que merecia.
Parecia que a “colmeia do Senhor” tinha chegado para me entregar o troféu de debiloide.
A feiura das caras fechadas dos fieis me deixavam ansioso, mas o herói da odisseia continuava firme, fingindo não se sentir intimidado.
Então pensei em sair dali calado, como entrei. Dei os primeiros passos, com ar descontraído, mas ouvi o padre vociferar:
__ Para! Para para Deus, meu filho! Você precisa se deixar envolver...
Fiz um esforço sobre-humano para pisar sobre minha vergonha:
__ Perdão, padre! Fui acometido por um processo antieducativo, prefiro hoje a autoaprendizagem. Como sabe, sou meio antissocial, por isso aqui mesmo fiz uma auto-observação e percebi que não posso fazer parte da sua alcateia.
__ Alcateia não! Rebanho...Meu rebanho!
__ Sabe, padre, já levei muitos pontapés na vida. Engoli jiboias e lagartos de toda gente dessa cidade medíocre, só porque queria ser eu. Todos sabem que sou ex-coroinha, e que era superexigente comigo na questão de que um dia iria para um semi-internato, onde pudesse aprender coisas mais interessantes do que histórias interestelares. Mas nem tive a chance, padre. Sabe que sou ex-aluno da escola de paraquedismo, e pude ver lá de cima, quando saltava, a imensidão do mundo e a pequenez do ser humano. Foi assim que vi sua alcateia rosnando e mostrando os dentes afiados a todos os que ousassem uma história além-mar. Eu ousei. Amém.
O MEU PRÓXIMO

Ontem doeu a minha alma,
Culpa do meu próximo.
Meus sonhos foram pisoteados,
Culpa dos pés do meu próximo.
Minha esperança foi arrancada,
Culpa das mãos do meu próximo.
Minha vida está escancarada,
Culpa dos olhos do meu próximo.
Cuspe há na minha alegria,
Culpa da boca do meu próximo.
Breu e névoa cobrem minha mente,
Desesperadamente preciso matar o meu próximo,
Mas ele está cá, bem dentro de mim...
AUTORRETRATO

Conheceu um antissemita ainda na infância. Difícil isso para alguém que não sabia sequer o significado da palavra antirreligioso, adjetivo que a si atribuiria quando adulto.
Ouvira tantas histórias sobre espermatozoides (ainda na escola), sem saber da ideia do pecado embutida nesse vocábulo.
Brincara com frequência perto de colmeias, caçara jiboias para sustentar sua autoimagem heroica, pois sonhava trabalhar num projeto que lidasse com paraquedas ou com sistema antiaéreo
Crescera um garoto super-resistente no que dizia respeito a autoavaliação. Nunca quisera falar sobre si mesmo.
Certa vez, caminhando sem rumo, já meio paranoico por não ter o que fazer, viu a porta semiaberta do museu da cidade. Não titubeou. Adentrou e paralisou diante de uma obra neoexpressionista. Sentiu-se diferente, suprassensível, quando viu naquele quadro a figura de uma plebeia. Finalmente distinguira algo significativo lá. Aquele rosto tranquilo, porém sofrido do quadro mudaria sua vida.
De repente ouviu-se um estrondo e um controle semiautomático comandara a porta que às costas dele se fechava. Correu com a força de um super-homem e fez um esforço sobre-humano para sair antes de a porta ser lacrada.
Não se importou com o ocorrido, mas havia algo estranho. “Talvez alguém que trabalhasse na contraespionagem no país o confundira com um espião”. Pobre menino! Apenas um intruso é o que era. Mas um dia se tornaria o arqui-inimigo do rei, um anti-imperialista. Seu nome entraria para a história como o temido, mas ultrarromântico defensor dos oprimidos. Fora cruel quando necessário, e demonstrara sensibilidade nos momentos de dor alheia.
O antissemita, a plebeia, as caçadas e tudo o que passara fizeram com que o menino-homem alçasse voos infindáveis e longas viagens pela autoestrada da vida. Seu nome era Hífen do Trema Circunflexo Agudo.
Rozenice E. Sanches
PECADO CAPITAL

“Cada um dos sete pecados capitais carregam seus estigmas, porém não deixam de carregar matizes aos olhos de seu pecador.” 15.04.08
Ainda muito pequena a menina fora introduzida no mundo dos livros. Antes mesmo de aprender a ler e escrever, uma de suas tias lhe dava o prazer da viagem a histórias de todos os gêneros, sem se deslocar de casa. Na verdade saiam sim, pois a tia encilhava um cavalo toda tarde, punha a menina na garupa e saía para cavalgar, ávida por contar os capítulos do que lera naquele dia. A criança aguardava esse momento como se fosse a chegada de um circo.
Se deliciava com cada palavra pronunciada pela moça que a carregava para os contos de todas as mil noites. Conhecera até o grande amor de Ceci e Peri nessa época.
Deitava-se e ficava horas imaginando os amores todos do mundo. Menina sonhadora.
Quando seus avós não tinham muitas ocupações, contavam histórias do folclore brasileiro, em especial as mais assustadoras; das grandes boaiadas levadas durante meses por peões sujos e cansados, que viam sempre alguma assombração; dos cachorros loucos que apareciam embaixo da cama de alguém ou que sempre corriam atrás de transeuntes pelas ruas, com mais freqüência no mês de agosto; e de pessoas que foram para o outro mundo, mas que teimavam em voltar para esse dos vivos, causando arrepios em quem ouvia deles falar.
A garota ia dormir então apavorada, com medo de pôr os pés no chão. Como saberia se não tinha algum cachorro louco escondido embaixo de sua cama, e que de repente com os olhos vidrados a mordesse e ela também ficasse louca, como os avós diziam que acontecia? Menina amedrontada.
Quando aprendeu a ler, rolou pelas leituras encantadas dos contos de fadas, alguns que até já conhecia. Comprava e trocava gibis de seus colegas, escondida de seu pai, pois por causa da religião, não lhe era permitido ler tais pecados. Ela, ingenuamente suscitou a desconfiança de seu pai sobre a “heresia”, quando passou a se trancar em seu quarto por tardes inteiras. Então o genitor descobriu as dezenas de gibis escondidos embaixo do colchão da leitora, e diante do choro incontido da menina fez uma fogueira na calçada com todos aqueles quadrinhos coloridos que a fizeram feliz durante tanto tempo. Menina desiludida.
Lia a bíblia, quando não podia ler outra coisa, adorava as histórias de milagres. Menina religiosa.
E pelos primeiros seis anos de estudo, conheceu e leu o que havia de Coleção Vagalume na biblioteca de sua escola. E tinha muito. Essa fora a melhor obrigação que lhe impusera a professora de Língua Portuguesa, pois agora seu pai não a poderia proibir. Chorou, sorriu, sofreu, questionou-se e viajou com cada personagem. Menina leitora.
Ainda lia a bíblia, quando não tinha outro livro à mão. Menina persistente.
Aos treze, começou a ter sensações estranhas com os romances que fantasiavam lindos casos de amor, em que havia homens e mulheres perfeitos, descreviam cenas de sexo com certa suavidade, cheias de prazeres desconhecidos até então para a adolescente. Menina mulher.
A bíblia era uma constante em sua vida. Menina desinteressada.
Encontrou-se com a poesia, passava o tempo lendo, decorando e declamando. Menina romântica.
A bíblia vivia em seu encalço, insistindo para ser lida. Menina arredia.
Adiante, conhecera grossos livros de casos verídicos sobre os horrores do holocausto, das “Febens”, dos presídios, das ditaduras. Vivia as dores do mundo como se fossem suas. Menina indignada.
De vez em quando bisbilhotava a bíblia. Menina cética.
Um dia se revoltou com as injustiças do mundo, conheceu autores mal vistos pela igreja. Sua vida se transformara em um turbilhão de dúvidas. Menina atéia.
A bíblia permaneceu num canto, sem deus.
Abdicou de todo tipo de leitura. Menina morta.












