quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Das agruras do amor

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.


Sophia de Mello Breyner Andresen 
Não importa o lugar.
O terror em qualquer situação é de amar...

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Ausência

"O poeta se engrandece
perante a ausência,
como se só a ausência fosse o seu altar,
e ele ficasse maior que a palavra.
No meu caso, não,
a ausência me deixa submersa,
sem acesso a mim."
Mia Couto
(Antes de nascer o mundo)
A ausência não pode curar nenhum mal.
"Eu só sou na tua presença." 

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

De novo amor

"O amor é uma morfina.
Podia ser comerciado em embalagem sob o nome:
AMORFINA."
Mia Couto
(Antes de nascer o mundo)
Nada mais entorpecente.
Enebria todos os sentidos possíveis 
e até faz-nos crer que existe mesmo.
Ah, o amor...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Sobre a vida

"Não chegamos realmente a viver durante a maior parte da nossa vida. 
Desperdiçamo-nos numa espraiada letargia a que, 
para nosso próprio engano e consolo, chamamos existência. 
No resto, vamos vagalumeando, 
acesos apenas por breves intermitências." 
Mia Couto
(Do livro: Antes de nascer o mundo)
E essas intermitências, às vezes, 
fazem valer uma vida inteira...

sábado, 19 de novembro de 2011

Da África

"'Escuta', diz a África milenar. 
Tudo fala. Tudo é palavra. 
Tudo busca nos transmitir um estado de ser 
misteriosamente enriquecedor. 
Aprende a escutar o silêncio 
e descobrirás que é música." 
Amadou Hampâté-Bâ
E descobrir a literatura africana é algo como
ouvir boa música todo tempo,
pois além do que lê,
ficam na mente gritando
aquelas belas vozes da África.
As vozes do silêncio.
Delicioso!!!

sábado, 12 de novembro de 2011

Viajante

"Eu sou o viajante do deserto que, no regresso, diz:
viajei apenas para procurar minhas próprias pegadas.
Sim, eu sou aquele que viaja apenas para se cobrir de saudades.
Eis o deserto, e nele me sonho;
eis o oásis, e nele não sei viver."
Mia Couto
(Venenos de Deus, remédios do Diabo)
Pior que cobrir-se de saudades
é não ter como matá-las...
Pior que caminhar descalço na areia quente
é não encontrar suas pegadas
na tentativa de regresso.

Da alta idade

"Cada velho que morre
é uma biblioteca que arde."
Mia Couto
Ah, quem dera pudéssemos salvaguardar
todas as histórias
carregadas nas memórias 
dos que já viveram tanto,
e têm (ou tinham)
tantas histórias para contar...
São ou foram, esses idosos,
bibliotecas orais.

Ps: Em memória dos meus (idos e amados) avôs.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Veneno

"O suficiente é para quem não ama.
No amor, só existem infinitos."
Mia Couto
(Venenos de Deus, remédios do Diabo)
 E por ser de infinitos 
talvez não o venhamos a entender nunca.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Diálogo

          _  Que lindo dia!!! Como é bom ver esse sol brilhando assim...
          _  Eu prefiro a noite. O escuro, o breu, o mistério carregado nela...
          _  Você prefere a noite não porque gosta do escuro, mas para se esconder da vida.
          _   ...........................................................
          "Quem fala a verdade não merece castigo."


terça-feira, 4 de outubro de 2011

Eu queria escrever um livro

 “Eu queria escrever um livro. Mas onde estão as palavras? Esgotaram-se os significados. Como surdos e mudos comunicamo-nos com as mãos. Eu queria que me dessem licença para eu escrever ao som harpejado e agreste a sucata da palavra. E prescindir de ser discursivo. 
Assim: poluição”.
Clarice Lispector
Assim fora eu,
a escritora sem ideias.
Não fosse a autora acima,
teria me sentido uma vez na vida
ao menos, singular,
sem ideias.

 A diferença brutal é que ela as teve,
eu não.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Relembrando

"Hay hombres que luchan un dia y son buenos.
Hay otros que luchan un año y son mejores.
Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos.
Pero hay los que luchan toda la vida: esos son los imprescindibles."
Bertold Brecht
 Sem palavras...

domingo, 25 de setembro de 2011

A última esperança

"[...]Porque foste em minh'alma
como um 'anoitecer'.
Porque foste
 o que tinha que ser..."
(Tom Jobim)

Não é a claridade da manhã
que me seduz,
Mas os mistérios da noite,
A ausência de luz.

... Porque eu era labirinto...

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.

Fernando Pessoa


E quando a sua própria alma não
lhe diz nada?
E quando se é um estrangeiro
dentro de si?

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Meu fado

"Meu fado é de não entender quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades."
Manoel de Barros
E o nada representa quase tudo.
A vida, a morte
O azar, a sorte.
É mesmo um fado, é quase o mundo.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

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"Só o silêncio faz rumor 
no voo das borboletas."
Manoel de Barros
Assim sendo, silenciemos...
.........................................

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Sinto saudades...

"Sinto saudades de quem não me despedi direito, 
das coisas que deixei passar, 
de quem não tive, mas quis muito ter." 
Clarice Lispector


E como a própria Clarice disse:
"Saudade é como fome", 
assim sendo, 
quantas fomes nossas 
jamais serão saciadas???

Obviedade

É na noite mais escura
que consigo saborear melhor
as estrelas.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Amigos

"Tenho amigos para saber quem eu sou,
pois vendo-os loucos e santos, 
bobos e sérios, 
crianças e velhos,
nunca me esquecerei de que 
a normalidade é uma ilusão estéril."
Oscar Wilde
E posso contar todos os meus amigos
em apenas uma mão.
Ter tão poucos não me entristece,
causa-me uma profunda satisfação,
pois me servem de qualquer medida:
Loucos e santos, bobos e sérios,
crianças e velhos.
E ainda me fazem ver todos os dias
que a normalidade não existe,
assim me conformo comigo.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Brevidade

Vejo o vácuo da escuridão da noite.
Cães ladram ao longe.
A epiderme transpira a nada.
Vazio na mais profunda cerne.
"Olhe para a vida!" - grito.
Mas o que é a vida,
senão esse breve traço
antes da morte???

Valor do silêncio

"Só entende o valor do silêncio 
quem tem necessidade de calar 
para não ferir alguém."
(Não sei de quem é, roubei do "face".) 
Incontáveis as vezes em que se faz necessário
segurar a voz antes de libertá-la,
causando dores em outrem,
embora doa em nós 
ter que devolver essa mesma voz às cordas vocais
que não a ouviram sair.