Todos os meus medos
Tornaram-se pedra.
Medo
Do desconhecido.
Do conhecido.
Da morte.
Da vida.
De temporal.
De mar.
De altura.
De cobra.
De amar.
De desamar.
De enxergar.
De cegar.
Da verdade.
Da mentira.
Da fartura.
Da miséria.
De dor.
De insensibilidade.
De amarras.
De medos.
De coragem.
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
LONGO ARGUMENTO
E assim surgiu o longo argumento
De que não posso amar-te sem limites
Porque não viestes só.
E no amor a que me proponho não cabe ninguém
Além de ti.
De que não posso amar-te sem limites
Porque não viestes só.
E no amor a que me proponho não cabe ninguém
Além de ti.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
A PAZ SE PERDE COM O TEMPO
"[...] Mas a Paz é uma sombra em chão de miséria:
basta o acontecer do Tempo para que desapareça."
Personagem Imani
Do romance MULHERES DE CINZA
MIA COUTO (p.21)
NÃO SER...
"Alguns de nós, humanos, temos esse mesmo destino:
falecidos por dentro,
e apenas mantidos pela parecença com os vivos que já fomos."
Da personagem Imani
MULHERES DE CINZA - MIA COUTO (p. 87)
domingo, 27 de novembro de 2016
DE VERDADES E ILUSÕES
"Um homem capaz de destruir ilusões é tanto um animal selvagem quanto uma inundação. As ilusões estão para a alma como a atmosfera para a terra [...]. A verdade nos destrói. A vida é um sonho. É o despertar que nos mata. Aquele que de nós rouba os sonhos também nos rouba a vida [...]."
VIRGINIA WOOLF
(ORLANDO - p. 190)
AH, O AMOR...
"Porque o amor, ao qual podemos agora retornar, tem duas faces: uma branca, a outra negra; dois corpos: um liso, o outro peludo. Tem duas mãos, dois pés, duas caudas, na verdade dois de cada membro, um o exato oposto do outro. Todavia, estão unidos tão firmemente que é impossível separá-los [...]."
VIRGÍNIA WOOLF
(Orlando - p. 126)
AMOR IMPOSSÍVEL
"Que há de verdade no amor?
A mesma verdade que existe na verdade. Se consome pelo uso. Ou se reforça pela ausência. Ou nem uma coisa nem outra. O mistério permanece e nos espanta sempre.
Para que então falar no que não se pode perceber?"
PEPETELA
(O planalto e a estepe, p. 52)
Como bem disse Shakespeare:
"Pobre é o amor
Que pode ser contado."
"Pobre é o amor
Que pode ser contado."
sábado, 29 de outubro de 2016
SEDUÇÃO
A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
Eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até a cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.
ADÉLIA PRADO
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
APÊNDICE - MANOEL DE BARROS
1. Ninguém consegue fugir do erro que veio.
2. Poema é lugar onde a gente pode afirmar que o delírio é uma sensatez.
3. A limpeza de um verso pode estar ligada a um termo sujo.
4. Por não ser contaminada de contradições a linguagem dos pássaros só produz gorjeios.
5. O início da voz tem formato de sol.
6. O dom de esculpir o orvalho só encontrei na aranha.
7. Pelos meus textos sou mudado mais do que pelo meu existir.
8. Não é por fazimentos cerebrais que se chega ao milagre estético senão que por instinto linguístico.
9. Sabedoria pode ser que seja ser mais estudado em gente do que em livros.
10. Quem se encosta em ser concha é que pode saber das origens do som.
2. Poema é lugar onde a gente pode afirmar que o delírio é uma sensatez.
3. A limpeza de um verso pode estar ligada a um termo sujo.
4. Por não ser contaminada de contradições a linguagem dos pássaros só produz gorjeios.
5. O início da voz tem formato de sol.
6. O dom de esculpir o orvalho só encontrei na aranha.
7. Pelos meus textos sou mudado mais do que pelo meu existir.
8. Não é por fazimentos cerebrais que se chega ao milagre estético senão que por instinto linguístico.
9. Sabedoria pode ser que seja ser mais estudado em gente do que em livros.
10. Quem se encosta em ser concha é que pode saber das origens do som.
segunda-feira, 24 de outubro de 2016
A CASA DOS CONTOS
Éramos três aspirantes a aventureiras. Resolvemos um dia nos embrenhar
pelas estradas mineiras a fim de conhecermos cidades históricas e ou famosas
por outro motivo. O roteiro estava na cabeça: Ouro Preto, Mariana, Sabará, Congonhas
(sugeridas pelas duas) e São Tomé das Letras (indicação minha). Três
professoras, as primeiras cidades eram importantes para as três por isso. Uma
de nós era historiadora. Prato cheio para suas aulas. Fiquei mais animada quando
uma delas (a professora de Língua Portuguesa) disse que em Outro Preto havia a
Casa dos Contos. Sem sombra de dúvidas, essa viagem seria especial.
Saímos em uma
manhã de janeiro (não me recordo o ano) cheias de planos. O destino era longe,
portanto pernoitamos duas vezes antes de chegar a Ouro Preto. “Eu só dirijo de
dia”, disse logo. Todas concordamos que era mais seguro ir sem pressa.
As estradas de
Minas são tortuosas. Lindas! Montanhas pelos caminhos. Muitas curvas. Antes de
sairmos do nosso estado, amedrontou-nos uma pesada chuva na Serra da Petrovina.
Entretanto, não conseguiu diminuir nosso anseio. Já em Minas, presenciamos um
acidente horrendo entre um ônibus e uma carreta que se encontraram em uma curva
fechada. Isso também não nos amoleceu. Queríamos chegar às cidades, à cultura
mineira, à história, aos contos, causos e às Letras de São Tomé. Fomos provando
das comidas mineiras nos restaurantes que parávamos e da hospitalidade
invejável daquele povo.
No terceiro dia,
finalmente chegamos à tarde em Ouro Preto. Andamos um pouco. Procuramos uma
pousada perto dos museus do centro, jantamos e nos recolhemos sonhando com o
outro dia.
Acordadas e bem
dispostas, vimos o sol raiar na cidade histórica. Saímos bem cedo para o tour pelos museus, igrejas e ruas
centenárias por onde escravos pisaram aos montes para erguerem as construções
portuguesas que saltavam à vista. Caminhando por ali, pensávamos a
Inconfidência Mineira, Tiradentes, o poeta inconfidente Cláudio Manoel da
Costa, e o mais ilustre morador dessas paragens, o Aleijadinho. Tudo foi
devidamente visto, perguntado, investigado pelas três curiosas. Mas faltava
ainda um lugar de suma importância para as duas professoras de Português que
compunham o grupo: a Casa dos Contos.
Perguntamos ali
pelo centro, alguns não souberam explicar direito, outros nos mostraram alguns
caminhos diferentes. Era tarde, resolvemos tomar um rumo e caminhar até lá.
Cansadas, estávamos o dia todo em visitações, caminhávamos na ânsia de
chegarmos logo e nos refastelarmos lendo alguns contos na Casa.
Uma pessoa, pelo
caminho, disse-nos que provavelmente estaria fechado. Duvidamos, e com o sol
gritando sobre nossas cabeças vencemos as ladeiras até chegarmos à frente da
Casa. Realmente estava fechada para público. Mas pedimos gentilmente que nos deixassem entrar. Vimos, então, um
tanto de dinheiro antigo espalhado em exposição. Estranhamos. Olhamo-nos. Santa
ignorância, devemos ter pensado as três. Começamos a rir com um certo desgosto.
Havíamos sim encontrado a Casa dos Contos. Dos contos de réis.
IRREVERSIBILIDADE
"Modificar o passado não é modificar um só facto;
é anular as suas consequências,
que tendem a ser infinitas.
Por outras palavras:
é criar duas histórias universais."
Jorge Luis Borges
(A outra Morte)
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
domingo, 16 de outubro de 2016
FANTASIA...
"AS OBRAS DE ARTE SÃO,
PARA A PSICANÁLISE,
SONHOS DIURNOS [...]"
Teoria Estética (p.19) - Theodor W. Adorno
Miguel de Cervantes que o diga...
sexta-feira, 14 de outubro de 2016
NULIDADE
"O país da fantasia é, neste mundo,
o único que merece ser habitado;
a essência do homem é tão nula
que só é belo aquilo que não existe."
Rousseau
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
POETAR
"NINGUÉM ESCREVERIA VERSOS
SE O PROBLEMA DA POESIA
CONSISTISSE EM FAZER-SE
COMPREENSÍVEL."
EUGENIO MONTALE
O POETA...
"ÉS BILINGUE ENTRE COISAS
DUPLAMENTE AGUDAS,
TU MESMO ÉS UMA LUTA
ENTRE TUDO AQUILO QUE LUTA,
FALANDO NO AMBÍGUO
COMO ALGUÉM QUE SE DESORIENTOU NA LUTA
ENTRE AS ASAS E OS ESPINHOS."
SAINT-JOHN PERSE
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
FEL
A intensidade com que você se jogou naquela correnteza feroz
foi a mesma com que corria para os meus braços cansados.
Era sobre uma pedra no meio do rio que se encontrava seu objeto de desejo.
Um pássaro alto, com as pernas alongadas, que fixava o olhar para o fundo.
E você pulou, lutando contra a selvageria da água, em busca de aventura.
Eu a vi submergindo antes de chegar ao pássaro. E me desesperei.
Seu corpo foi desaparecendo diante dos meus olhos aflitos.
Estaquei diante do rio por alguns segundos na esperança de vê-la emergir.
Mas você não voltou.
Em desespero, segui correndo pela margem do rio.
Sonhava encontrá-la abaixo.
Não estava. Que pesadelo!!! Terá ido de novo embora?
Arrancou-se mais uma vez de mim,
numa cena que meus olhos nunca desejaram ter visto.
A elucubrar, mantive-me diante daquele rio que me roubou.
Por que tanta ferocidade?
"Devolva-me ela!" - gritei.
Desisti. Chorei. Amaldiçoei aquele momento.
Senti ódio pela minha fraqueza diante da perda.
Mas de repente vi. Algo lá longe vinha correndo
novamente para meus braços cansados.
Era você. Com o pelo ainda molhado e a intensidade mesma.
Eu sorri. Você pulou. Mas agora, em mim.
E acordei então com um amargo de fel na alma...
foi a mesma com que corria para os meus braços cansados.
Era sobre uma pedra no meio do rio que se encontrava seu objeto de desejo.
Um pássaro alto, com as pernas alongadas, que fixava o olhar para o fundo.
E você pulou, lutando contra a selvageria da água, em busca de aventura.
Eu a vi submergindo antes de chegar ao pássaro. E me desesperei.
Seu corpo foi desaparecendo diante dos meus olhos aflitos.
Estaquei diante do rio por alguns segundos na esperança de vê-la emergir.
Mas você não voltou.
Em desespero, segui correndo pela margem do rio.
Sonhava encontrá-la abaixo.
Não estava. Que pesadelo!!! Terá ido de novo embora?
Arrancou-se mais uma vez de mim,
numa cena que meus olhos nunca desejaram ter visto.
A elucubrar, mantive-me diante daquele rio que me roubou.
Por que tanta ferocidade?
"Devolva-me ela!" - gritei.
Desisti. Chorei. Amaldiçoei aquele momento.
Senti ódio pela minha fraqueza diante da perda.
Mas de repente vi. Algo lá longe vinha correndo
novamente para meus braços cansados.
Era você. Com o pelo ainda molhado e a intensidade mesma.
Eu sorri. Você pulou. Mas agora, em mim.
E acordei então com um amargo de fel na alma...
domingo, 14 de agosto de 2016
DOR
"E que dor, se dividida,
fica dor menos doída."
Dizia um livro infantil.
Tudo fazia sentido.
Dividir dor ficaria menos pesaroso.
Mas não. Não é.
"Estamos sós e sem desculpas."
Não quero essa dor. Mas é minha.
Intransferível. Inalienável.
Desgraçadamente minha.
Ainda que a outra sinta dor dilacerante.
Cada qual chora a sua.
Juntas. E sós.
Sem deuses para pedir ajuda.
Não há a quem clamar.
Inunde-se minha face
Porque é só o desejo de agora.
fica dor menos doída."
Dizia um livro infantil.
Tudo fazia sentido.
Dividir dor ficaria menos pesaroso.
Mas não. Não é.
"Estamos sós e sem desculpas."
Não quero essa dor. Mas é minha.
Intransferível. Inalienável.
Desgraçadamente minha.
Ainda que a outra sinta dor dilacerante.
Cada qual chora a sua.
Juntas. E sós.
Sem deuses para pedir ajuda.
Não há a quem clamar.
Inunde-se minha face
Porque é só o desejo de agora.
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