quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

VOU-ME EMBORA...

Vou-me embora de mim
porque nada mais posso
que olhar para fora,
posto que dentro
é uma bagunça sem fim...

DO TEMPO

"Esta poeira não vem da terra mas dos anos. 
Temos medo do pó porque é uma prova de que 
o Tempo existe e vai nos tornando obsoletos, 
quase minerais." 
Mwadia 
(Personagem de O outro pé da sereia - Mia Couto)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

TERNURA - VINÍCIUS DE MORAES

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
                                                                     [ extático da aurora.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

SANGUE LATINO - NEY MATOGROSSO

Jurei mentiras
E sigo sozinho
Assumo os pecados
Os ventos do norte
Não movem moinhos
E o que me resta
É só um gemido
Minha vida, meus mortos
Meus caminhos tortos
Meu Sangue Latino
Minh'alma cativa
Rompi tratados
Traí os ritos
Quebrei a lança
Lancei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa
É não estar vencido
Minha vida, meus mortos
Meus caminhos tortos
Meu Sangue Latino
Minh'alma cativa

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

PAISAGEM NO RETROVISOR

A despeito de qualquer lágrima que queimou a face
Ao ouvir a música Retrovisor, de Fagner,
Há controvérsias hoje quanto à letra.

"Onde a máquina me leva" há tanto e tanto e tanto...
Para ver e ouvir e sentir.
Contudo só se obtém o desprendimento 
quando há liberdade de si mesmo
Alguns não conseguem viajar, sobretudo os oprimidos...
Não os escravos do mercado de trabalho,
Mas os oprimidos e opressores de si mesmos
Em nome de um sentimento nauseabundo e decadente.

Viajar requer desapego.
É aprender a deixar com os rastros da máquina
Quaisquer sintomas de realidade que podem ferir.

Despir-se um bocado do seu mundo,
Alçar voo, pegar estrada,
Caminhar novas trilhas

É curar-se um pouco de si mesmo.

EXCERTOS DE G.H.

[...] É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. (p. 16)

[...] Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. (p.17)

A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector 

INVERNO - ANTONIO CICERO

No dia em que fui mais feliz
eu vi um avião
se espelhar no seu olhar até sumir

de lá pra cá não sei
caminho ao longo do canal
faço longas cartas pra ninguém
e o inverno no Leblon é quase glacial.

Há algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente que larguei
naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?

Lá mesmo esqueci
que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudades, sem remorsos, só
sem amarras, barco embriagado ao mar

Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois
pouco antes do ocidente se assombrar.

Melodia: Adriana Calcanhoto

Porque vale a pena ler e ouvir de novo sempre...