sexta-feira, 6 de outubro de 2017

FUGA

Vamos fugir? - Dissemo-nos um dia.
E houve tanto que empreendeu fuga:
Os sonhos, viagens, estradas, poesia...
Só o que precisava não fugiu:
Você, eu, nós.

SUAS ASAS

Foi a sua rebeldia disfarçada 
que me enfeitiçou.
Não os doces olhos profundos.
Não a melancolia envolvente na sua voz.
Não sua tristeza, nem as poucas alegrias.

Nada foi tão mortal
Quanto meu olhar sobre suas asas.

Descobri então que 
"suas asas, amor,
quem deu não fui eu".
Você já chegara pronta para voar.

Secretamente carregou, desde muito,
estampada no peito, não nas costas,
a liberdade que pretendia.
Essa que não tem forma, nem nome, 
nem asas atrás.

Suas asas estão na frente,
porque precisa saber sempre 
que se vir no espelho,
o quanto é livre.

...E porque traz 
tatuadas no peito, asas,
voa. E voou. E voará sempre...

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

AUSÊNCIA

Perder-se de certos amigos
É despir-se no outono.

Seca a pele
Caem as folhas
Sem flores.

Só a teimosa poeira
Nos recônditos da alma...
 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

VIAGEM

Boto os pés na incerta estrada
Sem me importar com rumo exato
Abandonei a pesada bússola
Nada parece ser muito sensato.
E quem se importa com cautela?

O meu negro cavalo alado
Desaparece entre nuvens
Domina o céu e o arco-íris
Transpondo pedras e ferrugens.
Não há barulhos em excesso cá dentro.

Sem convicções ou certezas
Tudo é muito incerto nesta breve vida
Ignoramos muito mais que pressupomos conhecer
Uma viagem é sempre um beijo de despedida.
E quem deseja se plantar eternamente em algum canto?





segunda-feira, 22 de maio de 2017

EMBATE

"[...] os sonhos humanos são assim, às vezes pegam em coisas reais e transformam-nas em visões, outras vezes põem o delírio a jogar às escondidas com a realidade, por isso é tão frequente confessarmos que não sabemos a quantas andamos, o sonho a puxar de um lado, a realidade a empurrar do outro, em boa verdade a linha recta só existe na geometria, e ainda assim não passa de uma abstracção."
                         José Saramago - A CAVERNA (2010) p. 197

MUSEU

Razão reflexiva cotidiana:
Sem dramas, sem mágoas
Nenhuma desculpa.

Vamos nos reinventando todo dia.

Sentimentos decadentes
No horário melancólico
Da madrugada chuvosa.
Nenhuma canção nostálgica
Há de trazer de volta
Delícias passadas.

Sentimos muito
Pelo que passou
E que lá está.
No passado.

Ainda mais sentimos
Pelo que gostaríamos
De ter sido e não foi.
Não há regresso.

Volver ao que não foi
É a missão impossível
Para a vida.


terça-feira, 25 de abril de 2017

VIVER É PERIGOSO

"VIVER É MUITO PERIGOSO!" - asseverava Riobaldo.
É de fato.
Era para o narrador.
Foi para as personagens todas de GRANDE SERTÃO,
Assim como para o autor deste.

Viver é perigoso para todo mortal.
Mas há que se pesar os comentários sobre as durezas da vida.
Basta morrer-se. Acabar com tudo. Findar a jornada.
Morrer-se no sentido mesmo de se morrer. Fazer-se sem vida.
Quem quer? 

Tudo se faz grandioso, quando queremos, mas...
Alguns já estão privados de vida mesmo nela.
Quando se lamuriam de tudo, são mortos e não sabem.

Viver é perigosamente maravilhoso! Riobaldo que nos perdoe.


domingo, 12 de fevereiro de 2017

CERTEZA

Certeza? Não há certezas.
Tudo é questionável.
Do milagre ao acaso.
Da vida à morte.
Do mais simples ao mais complexo.
Do real ao imaginário.
Do que se lê ao que se escreve.
De quem conta a quem ouve.

Da dor ao amor.
Da minha verdade à sua.
Da coragem ao medo.

Da certeza à dúvida.



RESIGNAÇÃO

Uma senhora desabrigada por causa do alagamento disse-me ontem:
"Sabe, eu vim lá do Nordeste. Pedi tanta chuva a Deus quando vivia lá...
Ele mandou aqui esse tanto. Ele deve saber o porquê."
Certas crenças me causam alguma inveja.


HUMANOS

A noite foi de paz. Obrigada.
Dormi bem. Mas...
Sonhei que caminhava com água até a cintura.
Acordei exausta.
Não me pareceu estranho quando despertei.
Muitos estão assim no bairro em que trabalho.
Alagados...
Ver de perto, dói mais. E vi ontem.
Vi! Só.

Como pude dormir bem?
O que fiz enquanto meu próximo
Chorava à noite?
.....................................................
A pequenez humana é patética.
Sempre se acha que fez o possível
E adentra em seu sono confortável,
Crendo ser possível acordar melhor.

Mas o ceticismo não permite. 
Raramente creio. 
Em ninguém. Nem em mim...



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

SUGESTÃO

Não compartilhe a inveracidade.
Não deseje o mal.
Não faça comentários de que irá se arrepender.
Não cegue para o mundo.
Desconfie, pois...
Desconfie de si mesmo.
Do corpo.
Da sombra.
Das vontades.
Da falta delas.
Do que ouve.
Daquilo que não...

Coloque-se no lugar do outro.
Não suponha fatos.
Suspeite de informações quaisquer.

Julgue com sabedoria os contadores. 
Aquele que narra tem "sua" verdade.
.....................................................
Porque nosso cérebro tem caminhos insondáveis.
E a verdade pode não passar de um embuste
No qual estaremos presos a vida toda.

Vigie sua retórica.
"Para que não seja escravo de si mesmo."

Atente para o que vê.
Nossos olhos nos traem quase sempre.

Hesitar diante da certeza

É o caminho.

Tenho me dito isso todos os dias .





terça-feira, 31 de janeiro de 2017

MEDOS

Todos os meus medos
Tornaram-se pedra.

Medo
Do desconhecido.
Do conhecido.
Da morte.
Da vida.
De temporal.
De mar.
De altura.
De cobra.
De amar.
De desamar.
De enxergar.
De cegar.
Da verdade.
Da mentira. 
Da fartura.
Da miséria.
De dor.
De insensibilidade.
De amarras. 

De medos.
De coragem.

LONGO ARGUMENTO

E assim surgiu o longo argumento
De que não posso amar-te sem limites
Porque não viestes só.
E no amor a que me proponho não cabe ninguém
Além de ti.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A PAZ SE PERDE COM O TEMPO

"[...] Mas a Paz é uma sombra em chão de miséria: 
basta o acontecer do Tempo para que desapareça."
Personagem Imani 
Do romance MULHERES DE CINZA
    MIA COUTO (p.21)

NÃO SER...

"Alguns de nós, humanos, temos esse mesmo destino: 
falecidos por dentro, 
e apenas mantidos pela parecença com os vivos que já fomos."  
Da personagem Imani
MULHERES DE CINZA - MIA COUTO (p. 87)

domingo, 27 de novembro de 2016

DE VERDADES E ILUSÕES

"Um homem capaz de destruir ilusões é tanto um animal selvagem quanto uma inundação. As ilusões estão para a alma como a atmosfera para a terra [...]. A verdade nos destrói. A vida é um sonho. É o despertar que nos mata. Aquele que de nós rouba os sonhos também nos rouba a vida [...]."

                                                 VIRGINIA WOOLF
                                                (ORLANDO - p. 190)

AH, O AMOR...

"Porque o amor, ao qual podemos agora retornar, tem duas faces: uma branca, a outra negra; dois corpos: um liso, o outro peludo. Tem duas mãos, dois pés, duas caudas, na verdade dois de cada membro, um o exato oposto do outro. Todavia, estão unidos tão firmemente que é impossível separá-los [...]."


                                           VIRGÍNIA WOOLF
                                          (Orlando - p. 126)

AMOR IMPOSSÍVEL

"Que há de verdade no amor?
A mesma verdade que existe na verdade. Se consome pelo uso. Ou se reforça pela ausência. Ou nem uma coisa nem outra. O mistério permanece e nos espanta sempre.
Para que então falar  no que não se pode perceber?"  


                                                          PEPETELA
                                                   (O planalto e a estepe, p. 52)
Como bem disse Shakespeare:
"Pobre é o amor
Que pode ser contado."


sábado, 29 de outubro de 2016

SEDUÇÃO

A poesia me pega com sua roda dentada, 
me força a escutar imóvel 
o seu discurso esdrúxulo. 
Me abraça detrás do muro, levanta 
a saia pra eu ver, amorosa e doida. 
Acontece a má coisa, eu lhe digo, 
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar. 
Ela responde passando 
língua quente em meu pescoço, 
fala pau pra me acalmar, 
fala pedra, geometria, 
se descuida e fica meiga, 
aproveito pra me safar. 
Eu corro ela corre mais, 
Eu grito ela grita mais, 
sete demônios mais forte. 
Me pega a ponta do pé 
e vem até a cabeça, 
fazendo sulcos profundos. 
É de ferro a roda dentada dela. 
                         ADÉLIA PRADO

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

APÊNDICE - MANOEL DE BARROS

1. Ninguém consegue fugir do erro que veio. 
2. Poema é lugar onde a gente pode afirmar que o delírio é uma sensatez. 
3. A limpeza de um verso pode estar ligada a um termo sujo. 
4. Por não ser contaminada de contradições a linguagem dos pássaros só produz gorjeios. 
5. O início da voz tem formato de sol. 
6. O dom de esculpir o orvalho só encontrei na aranha. 
7. Pelos meus textos sou mudado mais do que pelo meu existir. 
8. Não é por fazimentos cerebrais que se chega ao milagre estético senão que por instinto linguístico. 
9. Sabedoria pode ser que seja ser mais estudado em gente do que em livros. 
10. Quem se encosta em ser concha é que pode saber das origens do som.