segunda-feira, 6 de outubro de 2014

CAIXA DE PANDORA

Ao menos três vezes por dia ela atravessava seu jardim até a caixa de correios colada ao muro. Abria-o. Certificava-se do vazio. Voltava a seus poucos afazeres.
Como num ritual, ontem ela fez o mesmo. Olhou. Vazio. Voltou.
Anteontem, idem. Mas anteontem era domingo. Qual a possibilidade de alguém depositar algo em sua caixa de correios em um dia de domingo? Nada. Não havia nada. “Com o advento da internet, as pessoas tornaram-se insensíveis!”, pensou.
Às vezes era acometida por um saudosismo tão brutal do tempo das cartas, que sua visita à caixinha desgastada pelo tempo, colada ao velho muro, passava de três vezes por dia. Em alguns raros dias era tomada por uma espécie de melancolia, então ia até a caixa uma vez só. Esses dias eram aqueles nos quais ela se permitia vinte e quatro horas de racionalidade.
Vez ou outra, abria lentamente a tampa da caixinha e visualizava uma ponta branca de papel. Não a abria toda. Corria à cozinha, colocava um champagne no gelo e rumava para a caixinha dos desejos. Ela sabia sentir o momento. Abria lentamente a tampa, como quem abre seu alvará de soltura. Tomava posse do envelope com todo cuidado, levava-o para dentro e o depositava sobre a mesa. Sentava-se, estourava o champagne, enchia o copo e degustava o líquido gasoso, com os olhos grudados no envelope. Ela sabia da falta de importância naquilo. Ou era uma conta, ou propaganda dos insistentes comércios de sempre. Tinha ciência de que o conteúdo não a agradaria. Mas era um envelope. Necessitava de todo ritual merecido por ter adentrado sua caixa de cartas.
A vazia vida se resumia à caixa. Não conhecia nenhum entregador dos correios, entretanto, admirava-os. Eram dignos do respeito dela.
Aposentada, inútil para o mundo, esquecida pelos poucos familiares que lhe restavam, guardava-se em sua insignificância. Não saía. Telefonava para o supermercado do bairro solicitando o necessário. Recebia tudo em casa. Renunciou a todo contato humano.
Hoje ela foi duas vezes à caixa, e ainda são dez horas da manhã. Ela não sabe, mas quando for novamente, encontrará em sua caixa de pandora um envelope pardo sem remetente. E até que consiga abri-lo, talvez já seja noite, tão feliz ficará ao se deparar com seu nome escrito à tinta vermelha, cor de sangue. Certamente tomará o champagne inteiro olhando para o envelope, não só um copo. Observará a palavra “urgente” escrita no lado do destinatário bem abaixo de seu endereço, e aguardará muito até não suportar mais a ânsia de ler seu conteúdo. Pegará a espátula, e cuidadosamente trará à luz aquela folha branca com poucas palavras. Notará que nela está escrita, à mão, parte do poema de Mário de Sá-Carneiro: “Eu não sou eu/ nem sou o outro./ Sou qualquer coisa de intermédio [...]”. Refletirá sobre essas palavras tão misteriosas e as sentirá lendo em voz alta. Lerá de novo e de novo. “Que lindo!” - pensará. Mas sua tez irá se franzir quando depois de tantos minutos parada nestes versos, perceber que há algo mais, escrito bem embaixo na folha, com letras minúsculas, quase imperceptíveis. São de cor cinza. Ela pegará a lupa, pois os óculos não abarcarão as palavras de forma inteligível. E lerá com um misto de aflição e alívio: “Este é seu último dia. Só irá à sua caixa de pandora até a meia-noite de hoje. Aproveite!”
À meia-noite e um minuto estarei lá para dar cabo de sua vacuidade, uma vida desgastada e infeliz.



terça-feira, 30 de setembro de 2014

GOZO

Desejo louco de escrever.
No entanto, os dedos não se entrelaçam com as palavras.
Falar de romantismo é tão blasé.
Não. Não gosto de romantismo.
Meu desejo palpita com os pés no chão.
Definitivamente não combinamos, portanto.
Calar é a melhor saída
quando tudo o que se tem a dizer é nada.

Mas insisto, repare, a vida é romântica.
Viver é uma espécie de gozo.
Não o gozo acompanhado do gosto ocre de vazio.
Mas aquele tântrico, saboreado nos mínimos movimentos.

Porque a vida é breve, como o gozo,
Contudo, pode ser sentida com delicadeza.
E ter-se a impressão de que é eterna,
Apesar da certeza de sua efemeridade.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

MEDO

"Permitam-me afirmar a minha crença inabalável de que a única coisa que devemos temer é o próprio medo." 
Franklin Delano Roosevelt 
(Discurso de Posse, 1933)


Reitero meu medo de ter medo.
E o tenho sempre...

terça-feira, 23 de setembro de 2014

MENTIRA NÃO PERMITIDA

"Eu posso mentir quanto eu quiser, mas não para mim mesmo. Essa mentira não é permitida [...]." 
Cristovão Tezza
(O FOTÓGRAFO)

SEM REGRESSO

"- Tens medo de fazer amor comigo?
- Tenho.
- Por eu ser preta?
- Não, não é por seres preta que tenho medo.
- Tens medo que eu esteja doente...
- Sei prevenir-me.
- E por que, então?
- Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti."
MIA COUTO (VENENOS DE DEUS, REMÉDIOS DO DIABOS)

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O IMORTAL

"Ser imortal é coisa comum. Com exceção dos homens, todas as criaturas são imortais, pois ignoram a morte. O que é divino, incompreensível, é saber que se é imortal. [...] Tudo, dentre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do perigoso. Dentre os Imortais, de outro lado, todo ato (e todo pensamento) é o eco de outros que o precederam no passado, sem nenhum início visível, ou constante presságio de outros que, no futuro o repetirão a um grau vertiginoso. [...] Nada pode acontecer apenas uma vez, nada é preciosamente precário." Jorge Luis Borges (O IMORTAL)

Quem quer ser imortal? Nada além da morte assusta mais. A vida sim, essa nos mata a cada átimo.

RATOS, HUMANOS, RATOS...

Hoje pela manhã surgiu um pequenino camundongo no meu ambiente de trabalho.
Inofensivo, aparentemente. E desprotegido. Corria para se esconder nos recônditos secretos da grande sala em que eu me encontrava com outros colegas.
Não fosse seu alto e lendário poder de assustar elefantes, poderia ser bonitinho até.
Lendas com elefantes. Com gente não. Alguns possuem fobia. Abrigam-se onde podem, gritam, correm, fazem escândalo.
A mim, coube a mesa. De cima dela, meus olhos acompanhavam o pequeno roedor desesperado em busca de proteção. Eu, idem. Na hora não me ocorreu que ele poderia subir na imensa mesa e se deleitar correndo sobre ela como fazia pelo chão, igualando-se a mim em cima.
Embrenhou-se entre caixas e livros e afins que ocupam espaços na sala. Sabe-se lá onde.
Ninguém mais o encontrou. Estamos à mercê de um bicho que não traz grande malefício ao ser humano. Não sei se voltarei a trabalhar amanhã.
Local de ratos. Meu trabalho. Ratos, humanos, ratos. Humanos, ratos, humanos.
Provavelmente ele tenha olhado para o meu desespero sobre a mesa e sentindo pena, elucubrou:
- Pobre criatura... Vive entre bichos pestilentos muito mais prejudiciais que eu...
ou
- Pobre criatura... Não passa de um rato de esgoto e faz cena quando me vê...
Seja lá o que tenha pensado o pequenino camundongo, fugindo de ser caçado por alguns poucos corajosos na sala, deve ser bem mais feliz do que muita gente que anda às pompas usando sua máscara cotidiana. 

domingo, 31 de agosto de 2014

SARGAÇOS SOMOS

“Tudo o que faço ou medito 
Fica sempre na metade. 
Querendo, quero o infinito. 
Fazendo, nada é verdade. 

Que nojo de mim me fica 

Ao olhar para o que faço! 
Minha alma é lúcida e rica, 
E eu sou um mar de sargaço – 

Um mar onde boiam lentos 

Fragmentos de um mar de 
além... 
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem”. 

Fernando Pessoa

Acostumemo-nos, pois, ao mar de sargaço que somos
De desejos incessantes
E pensamentos inconfessáveis.



DEPOIS...

Eis que temos nos preocupado tanto em preservar nosso lugar para depois da morte, que nos esquecemos de viver na terra. Olhamos demasiadamente para o eterno e deixamos passar por nós as oportunidades de sermos simplesmente humanos na terra. Esquecemo-nos da vida tão perene. Hoje cá, amanhã, outro dia, quem saberá? E que garantias há sobre o depois? Necessário se faz disseminar o bem, sem esperar por retribuições divinas. "Estamos sós e sem desculpas." 

"Não deixeis a vossa virtude fugir das coisas terrestres e adejar contra paredes eternas. Ai! Tem havido sempre tanta virtude extraviada! 
Restituí, como eu, à terra a virtude extraviada. Sim; restitua-a ao corpo e à vida, para que dê à terra o seu sentido, um sentido humano." Assim Falava Zaratustra



quarta-feira, 20 de agosto de 2014

DE AMOR E DE ANJOS

"Todos os dias quando acordo, vou correndo tirar a poeira da palavra amor." Clarice Lispector
Se Clarice e Macabéa acreditavam em anjos e no amor, quem sou eu para dizer que não existem??? E que tomem conta do mundo. Amém!!!

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

ARTE

" [...] eis que a mente é uma caixa ilimitada, a não ser por nossas estruturas internas, que a arte serve justamente para romper."  Sérgio Sant'anna (Um Crime Delicado)
Foto: Pigmaleão e Galateia - Jean Léon Gérôme

A SOCIEDADE DO CONSUMO

" [...] O grande problema é que, sendo mercadoria, o consumidor consome a si mesmo, sua vida, seu cotidiano. 'Consome-se' trabalhando para poder consumir o que o mercado apresenta e acaba por esquecer que ele é mercadoria primeira desse sistema. Portanto, nossa sociedade é insustentável, pois é contraditória, destrói a si mesma, gerando indivíduos frustrados, viciados em shoppings, doentes por consumir.[...] "Matêus Ramos Cardoso (Revista Filosofia)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

SOBRE-HUMANO

"[...] pode-se fazer a guerra neste mundo, macaquear o amor, torturar o semelhante, frequentar as colunas dos jornais ou simplesmente falar mal do vizinho enquanto se tricota. Mas, em certos casos, continuar, apenas continuar, eis o que é sobre-humano. " Albert Camus (A QUEDA)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

INCONSTÂNCIA

É por ser tão instável que devo desconfiar de mim todos os dias. O que ontem me parecia tão certo como os rios que deságuam no mar, apesar dos obstáculos que encontram, torna-se tão duvidoso quanto a hora última de vida.
A inconstância fere. "[...] Para ser feliz, é preciso não se envolver demais com os outros." Mas como não se envolver? Que "venenos de Deus ou remédios do Diabo" encontraríamos na caminhada para nos livrarmos desse mal? O mal de não pertencer a si mesmo...


A QUEDA DA MÁSCARA

“[...] Mas sabe por que somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há obrigações. Deixam-nos livres, podemos dispor do nosso tempo, encaixar a homenagem entre o coquetel e uma doce amante: em resumo, nas horas vagas. Se nos impusessem algo, seria a memória, e nós temos a memória curta. [...]” Albert Camus (A QUEDA)

sábado, 9 de agosto de 2014

... E HÁ TANTAS COISAS QUE REALMENTE NÃO ME INTERESSAM...

"De qualquer forma, eu talvez não estivesse certo do que realmente me interessava, mas estava totalmente certo do que não me interessava." Albert Camus (O ESTRANGEIRO)
... E há tantas coisas que realmente não me interessam, mas algumas pessoas não desconfiam de que não me importo se elas acreditam ou não em algo. Eu não acredito e não me interessam as crenças alheias. Para relembrar "Engenheiros": "Eu me sinto um estrangeiro, passageiro de algum trem...".

ESTAMOS TODOS CONDENADOS À MORTE...

"[...] Quando acabou, dirigiu-se a mim, tratando-me de 'meu amigo': se me falava desta forma, não era por eu estar condenado à morte; na sua opinião, todos nós estávamos condenados à morte. [...]." Albert Camus (Livro: O ESTRANGEIRO)
E NÃO ESTAMOS DE FATO, COMO SUGERIU O CAPELÃO?

POR QUE ESCREVER...

"[...] A poeta portuguesa Sophia de Mello Brayner contava histórias para que seus filhos doentes adormecessem. Escrevo para adormecer o mundo que me parece doente. E assim invento histórias." Mia Couto (Em entrevista)

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

RAKUSHISHA

"Deve haver como me perder, de algum modo. Deve haver como me perder para encontrar aquele lugar no mundo que nunca antes foi pisado antes, um território realmente virgem. Deve haver um modo, quem sabe, de partir em viagem e não regressar mais. Reduzir-se à mochila que vai às costas e a umas poucas mudas de roupa. Reduzir-se ou agigantar-se, a uma ausência de casa própria e cidadania, [...]. Levantar os pés para caminhar, estudar a bússola e o mapa, mas randomizar todos os gestos. Traçar uma reta, menor caminho entre dois pontos, e picotá-la com a tesoura, apagar trechos com a borracha, dissimular outros com o esfuminho, despistá-la em curvas. De tal modo a esquecer que um dia chegou a ser uma reta, dotada de ponto final. De objetivo. Desobjetivar-se. Esse, o território realmente virgem - o único. Assumir como um sentido a falta de sentido da vida. Em todos os sentidos. . ADRIANA LISBOA (RAKUSHISHA)

quarta-feira, 30 de julho de 2014

ARTE LITERATURA

"Porque a arte faz o homem acreditar em si mesmo. E se sentir melhor. A arte engrandece o homem." Bernardo Carvalho (Livro: REPRODUÇÃO)

Viva a ARTE LITERATURA!!!