domingo, 7 de junho de 2015

LUA

Olhe, olhe!!!
Veja a lua.
Nós conseguimos enxergar a mesma,
Apesar de distantes os corpos...


JUNHO


E chegou junho
Com a promessa
Dos girassóis:
"Hei de brilhar enquanto houver sol."
E se a sombra tentar apagar a alegria,
Os dias se tornarão a "dama da noite".


quinta-feira, 14 de maio de 2015

AUSÊNCIA - DRUMMOND

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


METAMORFOSE

E foram aqueles olhos famintos de vida
Que me fitaram com pedido de socorro.
Balbucios de "não me deixe morrer".
Foram as noites em claro,
As tentativas frustradas de aliviar a dor
Com suas mãos entre as minhas.
Foram as chegadas, as despedidas,
Foram os poucos dias que passei ao seu lado.
Foi seu desejo de viver
Que me impediu de querer morrer.
Foram os olhos, as poucas palavras,
o corpo franzino, tão pequeno que caberia no meu colo.
Foi sua dor que me mostrou 
as tantas dores maiores do que a nossa...
Assim reaprendo a viver.

domingo, 26 de abril de 2015

...

Porque alguns dias poderiam não ter amanhecido.
A noite teria sido eterna...


SEM ATROPELAR

Tudo azul, tudo na paz.
Outro dia:
Tudo cinza, tudo no caos.

Um dia de cada vez
Porque não podemos atropelar a vida.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

SORRISO

Seu sorriso é um alento para os corações cansados de dor.

VIDA??? ALÔ, VIDA!!!

   - Alô? - digo aflita com não sei quem do outro lado da linha. Ela mesma atende o fone de outrem...
  - Mais uma noite de tempestade passou, fia... Mais uma. Estou viva!!! Quase fui, mas passou tudo.
   Essa vida é mesmo uma criança. Às vezes quer escapar de nossas mãos, mas de repente volta brincando, trazendo alívio para quem clama por ela. E avisa todo segundo: Viva um dia de cada vez! Viver é ouvir uma música nova a cada instante.
Sua voz tem sido doce melodia aos meus ouvidos, tia amada...

segunda-feira, 13 de abril de 2015

HASTA LA VISTA, GALEANO...

"Assovia o vento dentro de mim.
Estou despido. 
Dono de nada, 
dono de ninguém, 
nem mesmo dono de minhas certezas, 
sou minha cara contra o vento, 
a contravento, 
e sou o vento que bate em minha cara."
EDUARDO GALEANO



Agradecimento eterno...
"Dorme agora... É só o vento lá fora..."

domingo, 12 de abril de 2015

FINITO

"Há um momento em que cordas se partem,
e é tudo."
Obra: A senhorita Simpson
Sérgio Sant'Anna
Partem-se porque, como tudo, são finitas...

DESOLAÇÃO

Onde há luz, sei a escuridão.
Onde nasce a fé, descrença.
Onde veem força, exaustão.
Onde nascem sonhos, pesadelo.
Onde entendem céu, inferno.
Onde encontram flores, espinho.
Onde surge a esperança, descrédito.
Onde notam o infinito, finitude.
Onde enxergam futuro, presente só.
Em vez de amanhãs, hoje.
Nada mais.

sábado, 4 de abril de 2015

LUZ

"Claro, claridade, coisa tipo manhã, avilo,
não vem depois da escuridão?
A vela pra existir,
chama dela,
num é no escuro?"
ONDJAKI
Mas nem sempre a vela
ilumina a escuridão que nos amedronta.

SEM VENDAS

Bendita seja a minha religião.
Benditos sejam todos os ensinamentos.
Aprendo todos os dias
Que o ser humano é irremediavelmente mortal.
A cada página virada
Sei que somos falhos quase sempre.
Que o homem pode ser muito mau, 
Mas também pode ser bom.
Que vive pequenas alegrias,
Mas que é infinitamente triste
Porque de uma forma ou de outra
Vive perdendo.
Perde para a vida, perde para a morte...
Nós, às vezes bichos, às vezes gente.

Literatura: religião.
Não embaça as vistas.
Traz a vida desnuda.
E as moléstias todas tatuadas.

Conhecemos assim,
Para o bem ou para o mal,
O ser humano, um bicho.
Animal errante, 
Caminhante de trilhos feito teias.
Sem encantamento.

Bendita seja minha religião.
Que não me promete vida eterna,
Mas conserva a luz nos caminhos escuros.

SEM CORES

O mundo visto em arco-íris
De repente tudo nubla, apaga-se...
Mas resta uma cor... É branca.
Não a cor da paz, mas da cegueira.
A cegueira branca. 
Porque precisamos cegar para certas dores.

ABALO

Cada dia findo
Leva um pouco da esperança
Que move o ser humano.
Esperança que a vida nos obriga a ter
Para sobrevivermos ao caos...

Ladrão de esperanças
É o tempo implacável.
Vai minguando
Tudo o que parecia
Ser inabalável no pequeno animal que somos...


sexta-feira, 3 de abril de 2015

VIDA

"[...] vida é mistério só, maresia...
Vida? - piano das teclas 
e das músicas desconhecidas [...]"
ONDJAKI


...

É uma lágrima só.
Mas ela toma a proporção do corpo inteiro...

domingo, 29 de março de 2015

REMO

"Quem nunca andou no mar 
não sabe que a terra fica longe
e que a força do braço
acaba rápido no insistir do remo."
ONDJAKI
QUANTAS MADRUGADAS TEM A NOITE

O TEMPO

"Só que o tempo, avilo -
o tempo nos constrói,
o tempo nos destrói [...]."
ONDJAKI
QUANTAS MADRUGADAS TEM A NOITE
(avilo = amigo, companheiro)

ESTADO "CRISTIÂNICO"


Era apenas uma criança. Uma menina, como tantas outras, que queria brincar, pular, subir em árvores, jogar peteca, correr pelos pastos, sentir a liberdade dos pássaros adonados do céu.
Mas veio em uma família na qual muitos eram religiosos fanáticos. O Estado Islâmico ainda não existia. Não havia os ataques terroristas que matavam dezenas. Contudo, pequenos ataques de insanidade exterminavam a alegria de muitos. Poderíamos nomear aqueles povos de Estado Cristiânico, fazendo uma rápida analogia.
Tão antiga quanto a humanidade é a crença de que alguns possuem o elevado poder de se conectar ao Criador e receber mensagens. Hoje parece ser por meio das redes sociais, local que os humanos escolheram para fazer seus pedidos a Deus, agradecer ou se lamuriar... Esperemos que Ele tenha tempo de ler o Facebook.
 Quanto à menina, tão cedo passou por uma cena de pânico familiar horrorosa, proporcionado por um ser “elevadíssimo” na sua família. Alguém dentre eles se meteu a profeta. Teve uma visão. Melhor seria ter nascido cego. “Ela vai morrer. Deus virá buscar essa menina.”
Gritos convulsos, choro de dores interiores nunca antes provadas pela família. Orações de bom encaminhamento. E a criança chorava sua própria morte. “O que esta lhe reservaria?”. Olhos de medo. Um pavor que deveria ser proibido na infância.
Fazia-se mortalha naqueles tempos. Tudo muito rústico. Nada do espetáculo de hoje, em que se entrega o morto a uma empresa e essa o traz maquiado no caixão. Para os materializados olhos humanos, bem melhor: ver o morto como o adormecido. O desejo era de acreditar na profecia de Guimarães Rosa: “A gente não morre. Fica encantado.”
Mas não existia encantamento naquela morte prematura, nem na dor de todos, nem na da criança, nem na do profeta que teve a visão. Era real. Haveria de morrer. Deus avisou. Sem motivos. O grande Pai não precisa de mote para acionar a morte.
Entretanto essa visão não passou de uma demência pela qual todo ser humano fanático corre o risco de passar algum dia. Nada aconteceu à noite. Todos amanheceram vivos. A menina, inclusive. E uma outra menina, mais nova. Tudo vivo, mas naquele dia, a ideia doentia e alienante da religião que a família seguia começou a morrer na cabeça da criança menor. Essa outra assistiu a tudo. E trouxe flashes daquele circo de horrores uma vida inteira.     
O tempo parece lento, mas é breve demais. Passa sem que percebamos que o fanatismo muda de nome e lugar, mas existirá enquanto houver ser humano.
Mais de trinta anos se passaram e a família novamente se depara com uma situação de risco daquela criança, que hoje é mulher. A mulher, que na inocente infância chorou a própria morte, luta mais uma vez contra a maldição. “Não há de ser nada”, digo. “Nada há de ser. É mais um pesadelo. Algum demente deve ter dito que ela passaria por esse medo de novo. Vai passar.”
A profecia doente de tantos anos é a verdade de todo ser humano. Todos passaremos. Mas agora não.