sexta-feira, 25 de julho de 2014

DISCÍPULA DA VIDA

"Não tenho tempo para choradeira, o agora urge. Tenho que pisar pedras como se fossem pétalas", disse a uma amiga. Ela riu. Rimos. 
Quando parece que posso prostrar-me e finalmente jorrar todo líquido quente preso no canal lacrimal, vem outra pancada da vida avisando: "Levanta-te e anda! Você não tem fé e caminha sozinha. Portanto faça valer cada minuto nesta carne que compõe seu corpo esquálido e falível." Sou carne, mas preciso caminhar como se fosse composta por pedras. 
Levanto-me, então, e ando como uma verdadeira discípula da vida. Desta que não nos permite outra chance.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

ÉRAMOS DEUSES ATÉ QUE NOS CONHECERAM

Sinto um desejo enorme de escrever um texto sobre pessoas ou uma cúpula que se pareciam deuses antes de serem conhecidas. É realmente asquerosa a forma de poder que alguns conseguem exercer sobre os mais frágeis. Seriam imortais, caso um ou outro não enxergasse a nojenta face por trás das máscaras que carregam. Sob as máscaras, vácuo, vazio, oco. Falta. No fundo, esses imortais são tão fracos e vulneráveis, que qualquer palavra mais pesada consegue atingir seu âmago, chegando não só às suas cascas, mas a seus íntimos todos. Ferem o outro para se sentirem melhores. Assim conseguem aliviar seus egos da falta de amor próprio.
Sem nomes. Sem identidades. São ninguém sem os créditos de seus séquitos indefesos.
Faltam-me palavras. Vazio. Oco. Vácuo. Nada. Falta.
Um texto um dia poderia nascer. O título já brotou.
Quem sabe um dia...

terça-feira, 22 de julho de 2014

GAZA NÃO É FEITA DE HAMAS


Muitos judeus foram assistir, satisfeitos, à condenação de Cristo há dois mil anos.
Milhares de judeus sucumbiram no holocausto aterrorizante de quarenta e cinco.
Alguns judeus hoje juntam-se, no alto de um morro,
para apreciarem os bombardeios em Gaza nos fins de tarde.
De geração em geração, judeus repetem o jugo de perseguirem
e serem perseguidos.
Aprende-se a intolerância com os pais.
A intolerância é herança. Triste herança!

"[...] se os verbetes do meu avô podem ser resumidos na frase como o mundo deveria ser, que pressupõe uma ideia oposta do mundo como de fato é, eu duvido que meu pai não soubesse disso antes da leitura do texto: que para o meu avô esse mundo real significava Auschwitz, e se Auschwitz é a maior tragédia do século XX, o que pressupõe a maior tragédia de todos os séculos, já que o século XX é considerado o mais trágico de todos os séculos, porque nunca antes tanta gente foi bombardeada, fuzilada, enforcada, empalada, afogada, picada, eletrocutada antes de ser queimada ou enterrada viva, dois milhões no Camboja, vinte milhões na União Soviética, setenta milhões na China, centenas de milhões somando Angola, Argélia, Armênia, Bósnia, Bulgária, Chile, Congo, Coreia, Cuba, Egito, El Salvador, Espanha, Etiópia, Filipinas, Haiti, Honduras, Hungria, Índia, Indonésia, Irã, Iraque, Líbano, Líbia, México, Mianmar, Palestina, Paquistão, Polônia, Portugal, Romênia, Ruanda, Serra Leoa, Somália, Sri Lanka, Sudão, Tchecoslováquia, Tchetchênia, Tibete, Turquia e Vietnã, cadáveres que se acumulam, uma pilha até o céu, a história geral do mundo que é tão somente um acúmulo de massacres que estão por trás de qualquer discurso, qualquer gesto, qualquer memória, e se Auschwitz é a tragédia que concentra em sua natureza todas essas outras tragédias também não deixa de ser uma prova da inviabilidade da experiência humana em todos os tempos e lugares - diante da qual não há nada o que fazer, o que pensar, nenhum desvio possível do caminho que meu avô seguiu naqueles anos, o mesmo período em que meu pai nasceu e cresceu e jamais poderia ter mudado essa certeza." (DIÁRIO DA QUEDA - MICHEL LAUB - p. 133/134)



domingo, 20 de julho de 2014

INSONE

Ah, se da insônia brotassem ideias...
Mas não. É cruel.
Está na sua essência ser.
Há algo de insano na insônia.
Proíbe-nos de sonhar e rouba-nos 
todas as brilhantes ideias
as quais corremos atrás
 todos os dias.
"A insônia não é a falta de sono,
é o excesso de ansiedade."

A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO

Viva o grande mestre Galeano.

sábado, 19 de julho de 2014

BICHOS

"O animal dentro de nós não tem rosto."
Desconhecemo-nos todos os dias...

sábado, 12 de julho de 2014

FELICIDADE

"Mas a neblina é um pouco como a felicidade, 
só se vê de longe, 
nunca de dentro."
J.P. Cuenca

segunda-feira, 7 de julho de 2014

NORMOSE

"Normose, a doença da normalidade. Pode ser definida como um conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir, que são aprovados por consenso ou por maioria em uma determinada sociedade e que provocam sofrimento, outras doenças e morte. Uma pessoa normótica é aquela que se adapta a um contexto e a um sistema doente, e age como a maioria. É um sofrimento, a busca da conformidade que impede o encaminhamento do desejo no interior de cada um, interrompendo o fluxo evolutivo e gerando estagnação." (Site: Pragmatismo Político)

É necessária uma avaliação diária para ter a certeza de que ainda não foi acometido por essa doença horrível. 
Ps: É contagioso... Para quem está sem imunidade, claro...



PARADOXO

“Não se pode regular sua vida pela procura do bem, 
a felicidade de um será sempre a infelicidade do outro.” 
Tzvetan Todorov 
MAKTUB, creio eu...

sábado, 5 de julho de 2014

CONVENÇÕES

As convenções são nojentas.
Pensamentos mumificados.
Patologia coletiva.
Visão neutralizada.
Mundo sem cores.
Desejos não vividos.
Doença. "Mal desnecessário".
As convenções interrompem,
Matam sonhos.
Violentam a fantasia.
Atropelam quereres.
Quadrado. Gaiola.
Cárcere. Caminhos fechados.
A vida é breve demais
para que a preenchamos
com convenções.

Como disse o poeta:
"As convenções são o cancro do mundo."

sexta-feira, 4 de julho de 2014

MORTE AOS ORÁCULOS

Se cada um de nós tivesse um oráculo particular
Poderíamos nos preparar para as temeridades da vida,
Mesmo as piores.
Entretanto, estamos ao sabor do vento
Na brisa de uma vida tão incerta quanto assustadora.
Hoje estou cá, amanhã quem saberá?
"Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos",
e soubesse do meu dia de amanhã, eu nada seria.
Ainda que eu tivesse um oráculo particular,
E este quisesse me alertar sobre a vida...
Eu não me bastaria.
Morte aos oráculos!!!


ENTREVISTA: EU NÃO SOU TRAFICANTE

Nos rincões do Paraguay. Entrevista com um jovem rapaz, maltrapilho, sujo, mãos calejadas:
- Há muito tempo você trabalha no cultivo da maconha? - repórter.
- Faz bastante tempo...
- Já o prenderam? A polícia já o levou? - repórter.
- Sim. Me amarraram no pau e perguntaram de quem era a plantação, quanto tinha, como levava, eu era "de menor"...
- E você respondeu? - repórter.
-Não. Não podia falar. 
- O que você acha que aconteceria se tivesse dado as informações sobre o patrão? - repórter.
- ... Aí ficaria difícil, né? - Eufemismo para a morte.
- Você se considera traficante? - repórter.
- Sou não. Sou um trabalhador como outro qualquer na roça. Traficante é quem tem o dinheiro. Eu só trabalho. Não sou traficante!
Essa afirmativa nos põe em reflexão. Se não fosse ele a cultivar, seria outro trabalhador pobre que também receberia uma miséria em troca do trabalho árduo de plantar, colher, secar, embalar e deixar tudo pronto para o despacho. Como em uma roça de fumo. Traficante é aquele que fica com o grosso dinheiro oriundo do comércio disso. Ele é um trabalhador apenas, nada mais.




O DUPLO

- Eu te desconheço!" - ela ouviu de repente.
"Desconheço as duas pessoas que moram dentro de você...
Como podem habitar dois seres tão diferentes dentro de um só ser?"
- Pode! É o monstro humano que alimentamos às vezes. 
Aquele do qual tentamos nos livrar e não conseguimos...
Como se fosse parte integrante de nós. O duplo.
E o único remédio é matá-lo quando não somos capazes 
de nos desvencilhar dele.
E para exterminá-lo, necessário se faz matar os dois.


terça-feira, 1 de julho de 2014

MENTEM-ME...

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente. [...]

Affonso Romano de Sant'anna
A pior mentira é aquela
que contamos a nós mesmos
inúmeras vezes, na vã tentativa
de sofrermos menos.
Mentiram-me e minto-me.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

SOMOS OBRAS DE FICÇÃO

“A memória é a lembrança sob um único ponto de vista, no caso o do narrador do romance. [...] Todos somos construídos pelas mentiras que contamos a nós mesmos e nesse aspecto 
todo adulto é uma obra de ficção.” 
JOCA REINERS TERRON
Somos feitos de mentiras 
sobre nós mesmos...???

sábado, 28 de junho de 2014

SAUDADE


A saudade é uma tatuagem na alma.
Só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós.
MIA COUTO

ALGUÉM DISSE...

A culpa atravanca tantos caminhos...
"Às vezes cansa. Os ombros pedem descanso."
E nunca conseguem descansar...
Como se segurassem a vida pesada sempre.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

CARTA A JUDAS

Ei, caro Judas...
Sabia que ainda o "malham" no sábado de aleluia?
Tem um monte de gente que o critica dois mil anos depois,
mas não perde a chance de ganhar 
um quinhão para se dar bem. 
Você tem que vir e explicar que o que fez, 
estava escrito que faria.
Como seria a história se não tivesse obedecido
a imposição do seu Pai?
Você foi pressionado, parece-me.
Poderia ter escolhido não fazer. 
Mas fez. Problema seu. Pagou.
As pessoas dos séculos que vieram não entenderam.
No séc. XXI ainda não compreendem bem isso.
Querem seguir seu exemplo, e o superam muito.
O ouro hoje é de quantidade imensurável.
Suas trinta moedinhas são nada, 
perto do vil metal a que se apegam seus seguidores. 
Hoje seriam seus chefes.
Você não entende nada de barganha e ganância, Judas.
Precisa vir aprender aqui. Em muitas igrejas.
Você não imagina o quanto se ganha 
em nome do homem que você "traiu".
Músicas, shows, bênçãos recebidas, souvenires...
Precisa lembrar-lhes de que você beijou porque amava,
devolveu as moedas, arrependeu-se (tarde demais)
e cometeu suicídio pela vergonha do que fez.
Hoje, nestes casos, não o cometem.
Se o fizessem, seria porque perderam o metal,
e o vazio do bolso lhes sufocou o pescoço.
Mas não. Não cometem suicídio.
Não têm por que. Prosperam muito.
Tudo em nome Daquele que você trocou
por trinta malditas moedas de ouro.
Sinto muito, Judas. 
Você não beira aos pés dos novos mercadores de Jesus.
Se visse, iria suicidar-se de novo.


DAS IMPUREZAS

Nosso amor é impuro 
como impura é a luz e a água 
e tudo quanto nasce 
e vive além do tempo.

Mia Couto

quinta-feira, 26 de junho de 2014

...

"Ainda bem que sempre existe outro dia. 
E outros sonhos.
E outros risos. 
E outras pessoas. 
E outras coisas..."
Clarice Lispector
E outros mundos...
Assim seja!!!