sábado, 10 de março de 2018

PALAVRAS AO VENTO

"As palavras têm valor, o povo acredita nas palavras como deuses. Mas aprendi que as palavras só valem quando correspondem ao que se faz na prática." 
O NARRADOR - Mayombe - Pepetela

MUDAR O MUNDO

"Queremos transformar o mundo e somos incapazes de nos transformar a nós próprios. Queremos ser livres, fazer a nossa vontade e a todo momento arranjamos desculpas para reprimir os nossos desejos. E o pior é que nos convencemos com as nossas próprias desculpas, deixamos de ser lúcidos. Só covardia." Personagem Sem Medo - MAYOMBE - PEPETELA


quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

RETROVISOR

Onde a máquina me leva há tanto e tanto e tanto...
Para ver e ouvir e sentir.
Contudo só se obtém o desprendimento quando há liberdade de si mesmo
Alguns não conseguem viajar, sobretudo os oprimidos...
Não os escravos do mercado de trabalho,
Mas os oprimidos e opressores de si mesmos
Em nome de um sentimento nauseabundo e decadente.

Viajar requer desapego.
É aprender a deixar com os rastros da máquina
Quaisquer sintomas de realidade que possam ferir.
Despir-se um bocado do seu mundo,
Alçar voo, pegar estrada,
Caminhar novas trilhas
É curar-se de si mesmo.



Ps: Inspirada no tema inverso da música Retrovisor.


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

PATACHO

Jamais soube por que sobrevivi, até então.
Nunca encontrei uma explicação para tamanha fortuna do destino comigo.
Naquele ano eu conheceria mais um estado no Nordeste. 

Tudo certo para a viagem. Planos aos montes.
Programa a quatro mãos amigas.
Mapa das praias. 
Pés atentos à possibilidade da areia.
Ânsia do cheiro do mar.

Mas naquela manhã tudo cessou por alguns segundos.
Esperança mitigando as mentes companheiras.
Nada de mar. Nenhuma brisa. Sonhos dissipados.

Não seria naquele ano a viagem. Nem no outro.
E eu não entendia a carícia do destino em mim.
Por que a vida me quis por mais tempo?
O que havia para ser feito ainda?
Por que fui poupada?
Jamais saberia, se não tivesse ido àquele lugar.
Finalmente, dois longos anos passados... 

Quando meus olhos pousaram naquele verde,
Ao sentir o cheiro da brisa. O sol.
Areia sob os pés. Os coqueiros. 
Meus olhos descansados na paisagem...
O mar, o sol, a areia, os coqueiros.
Eles de novo e de novo.
E meus olhos e o mar e o sol e a areia e os coqueiros
E os olhos e...

Os olhos assentados ali e a clarividência.
Era só isso: algo no universo me deu a chance.
Eu vivi para ver. Vivi para que meus olhos se deliciassem
Com o espetáculo do mundo:
O paraíso. Eu vi o paraíso.
Agora já posso morrer...

DO MAR...

"A imensidão do mar que nada pode modificar 
ensinou-me a paciência.
O mar une, o mar estreita, o mar liga. 
[...] 
eu, ladrão, marinheiro, contrabandista, guerrilheiro, 
sempre à margem de tudo
mas não é a praia uma margem?"
Personagem Mautiânvua
MAYOMBE - PEPETELA
Óh, mar, ensina-me a paciência...

PONTUAÇÃO

Escrever é preciso,
Pontuar também.
Escreva, pontue, leia. 
Escreva, pontue, leia...

Era isso que queria dizer?
Sim, Não. Não era.
Nunca se diz o que realmente se deseja.
Há sempre algo que permanece enroscado na garganta.
Gritos. Palavrões. Pseudorazões. 
Palavras. Palavras. Palavras.
Vírgulas. Reticências. Pontos finais.

Exclame. Interrogue. Cite.
Cite o que não é seu.
"O problema da solidão
é que não temos a quem mentir."
Mentir para o outro é tantas vezes mais atraente
que mentir a si mesmo.
Mas pontue sempre,
mesmo que com reticências.

Pontue como fazemos com a vida, não raro.
Momentos de pausa.
Assuntos  irresolutos.
Tempos de falar. Ou calar-se.
Questionar. Responder.
Admirar-se. Exclamar...
Explicar. Mentir, omitir. 
Deixar algo, esquecer... Ou tentar.

Escrever é preciso! Pontuar também.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

FUGA

Vamos fugir? - Dissemo-nos um dia.
E houve tanto que empreendeu fuga:
Os sonhos, viagens, estradas, poesia...
Só o que precisava não fugiu:
Você, eu, nós.

SUAS ASAS

Foi a sua rebeldia disfarçada 
que me enfeitiçou.
Não os doces olhos profundos.
Não a melancolia envolvente na sua voz.
Não sua tristeza, nem as poucas alegrias.

Nada foi tão mortal
Quanto meu olhar sobre suas asas.

Descobri então que 
"suas asas, amor,
quem deu não fui eu".
Você já chegara pronta para voar.

Secretamente carregou, desde muito,
estampada no peito, não nas costas,
a liberdade que pretendia.
Essa que não tem forma, nem nome, 
nem asas atrás.

Suas asas estão na frente,
porque precisa saber sempre 
que se vir no espelho,
o quanto é livre.

...E porque traz 
tatuadas no peito, asas,
voa. E voou. E voará sempre...

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

AUSÊNCIA

Perder-se de certos amigos
É despir-se no outono.

Seca a pele
Caem as folhas
Sem flores.

Só a teimosa poeira
Nos recônditos da alma...
 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

VIAGEM

Boto os pés na incerta estrada
Sem me importar com rumo exato
Abandonei a pesada bússola
Nada parece ser muito sensato.
E quem se importa com cautela?

O meu negro cavalo alado
Desaparece entre nuvens
Domina o céu e o arco-íris
Transpondo pedras e ferrugens.
Não há barulhos em excesso cá dentro.

Sem convicções ou certezas
Tudo é muito incerto nesta breve vida
Ignoramos muito mais que pressupomos conhecer
Uma viagem é sempre um beijo de despedida.
E quem deseja se plantar eternamente em algum canto?





segunda-feira, 22 de maio de 2017

EMBATE

"[...] os sonhos humanos são assim, às vezes pegam em coisas reais e transformam-nas em visões, outras vezes põem o delírio a jogar às escondidas com a realidade, por isso é tão frequente confessarmos que não sabemos a quantas andamos, o sonho a puxar de um lado, a realidade a empurrar do outro, em boa verdade a linha recta só existe na geometria, e ainda assim não passa de uma abstracção."
                         José Saramago - A CAVERNA (2010) p. 197

MUSEU

Razão reflexiva cotidiana:
Sem dramas, sem mágoas
Nenhuma desculpa.

Vamos nos reinventando todo dia.

Sentimentos decadentes
No horário melancólico
Da madrugada chuvosa.
Nenhuma canção nostálgica
Há de trazer de volta
Delícias passadas.

Sentimos muito
Pelo que passou
E que lá está.
No passado.

Ainda mais sentimos
Pelo que gostaríamos
De ter sido e não foi.
Não há regresso.

Volver ao que não foi
É a missão impossível
Para a vida.


terça-feira, 25 de abril de 2017

VIVER É PERIGOSO

"VIVER É MUITO PERIGOSO!" - asseverava Riobaldo.
É de fato.
Era para o narrador.
Foi para as personagens todas de GRANDE SERTÃO,
Assim como para o autor deste.

Viver é perigoso para todo mortal.
Mas há que se pesar os comentários sobre as durezas da vida.
Basta morrer-se. Acabar com tudo. Findar a jornada.
Morrer-se no sentido mesmo de se morrer. Fazer-se sem vida.
Quem quer? 

Tudo se faz grandioso, quando queremos, mas...
Alguns já estão privados de vida mesmo nela.
Quando se lamuriam de tudo, são mortos e não sabem.

Viver é perigosamente maravilhoso! Riobaldo que nos perdoe.


domingo, 12 de fevereiro de 2017

CERTEZA

Certeza? Não há certezas.
Tudo é questionável.
Do milagre ao acaso.
Da vida à morte.
Do mais simples ao mais complexo.
Do real ao imaginário.
Do que se lê ao que se escreve.
De quem conta a quem ouve.

Da dor ao amor.
Da minha verdade à sua.
Da coragem ao medo.

Da certeza à dúvida.



RESIGNAÇÃO

Uma senhora desabrigada por causa do alagamento disse-me ontem:
"Sabe, eu vim lá do Nordeste. Pedi tanta chuva a Deus quando vivia lá...
Ele mandou aqui esse tanto. Ele deve saber o porquê."
Certas crenças me causam alguma inveja.


HUMANOS

A noite foi de paz. Obrigada.
Dormi bem. Mas...
Sonhei que caminhava com água até a cintura.
Acordei exausta.
Não me pareceu estranho quando despertei.
Muitos estão assim no bairro em que trabalho.
Alagados...
Ver de perto, dói mais. E vi ontem.
Vi! Só.

Como pude dormir bem?
O que fiz enquanto meu próximo
Chorava à noite?
.....................................................
A pequenez humana é patética.
Sempre se acha que fez o possível
E adentra em seu sono confortável,
Crendo ser possível acordar melhor.

Mas o ceticismo não permite. 
Raramente creio. 
Em ninguém. Nem em mim...



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

SUGESTÃO

Não compartilhe a inveracidade.
Não deseje o mal.
Não faça comentários de que irá se arrepender.
Não cegue para o mundo.
Desconfie, pois...
Desconfie de si mesmo.
Do corpo.
Da sombra.
Das vontades.
Da falta delas.
Do que ouve.
Daquilo que não...

Coloque-se no lugar do outro.
Não suponha fatos.
Suspeite de informações quaisquer.

Julgue com sabedoria os contadores. 
Aquele que narra tem "sua" verdade.
.....................................................
Porque nosso cérebro tem caminhos insondáveis.
E a verdade pode não passar de um embuste
No qual estaremos presos a vida toda.

Vigie sua retórica.
"Para que não seja escravo de si mesmo."

Atente para o que vê.
Nossos olhos nos traem quase sempre.

Hesitar diante da certeza

É o caminho.

Tenho me dito isso todos os dias .





terça-feira, 31 de janeiro de 2017

MEDOS

Todos os meus medos
Tornaram-se pedra.

Medo
Do desconhecido.
Do conhecido.
Da morte.
Da vida.
De temporal.
De mar.
De altura.
De cobra.
De amar.
De desamar.
De enxergar.
De cegar.
Da verdade.
Da mentira. 
Da fartura.
Da miséria.
De dor.
De insensibilidade.
De amarras. 

De medos.
De coragem.

LONGO ARGUMENTO

E assim surgiu o longo argumento
De que não posso amar-te sem limites
Porque não viestes só.
E no amor a que me proponho não cabe ninguém
Além de ti.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A PAZ SE PERDE COM O TEMPO

"[...] Mas a Paz é uma sombra em chão de miséria: 
basta o acontecer do Tempo para que desapareça."
Personagem Imani 
Do romance MULHERES DE CINZA
    MIA COUTO (p.21)