domingo, 29 de maio de 2016

O ÚLTIMO UNICÓRNIO

Sem luz. Sem sussurros.
Sem um vocábulo que nos ressuscite.
Não pretendo mais ouvir suas poesias.
Os termos elegantes no estado de loucura....

Os cascos do último unicórnio não se ouve mais.


O calabouço trancou-se às nossas costas.

Fomos cunhados em uma matéria que se desgasta.
Na razão dos encarcerados.

Os olhos tristes terão visto assombros.


Ou sombras. 


Ou sobras?


sábado, 28 de maio de 2016

TRISTE QUIMERA

E foi pela saudade
Pelo desejo. Por nada...
Eu quis você de novo.
Como se fosse possível que viesse.
Como se pudesse sentir novamente
Todo ardor furioso de outrora.

Não. Não é possível este regresso.
Nossos caminhos se perderam
Nas estradas de um mundo que não nos abriga.

Ainda assim implorei,
Mas algo nos roubou de nós.

Pude ainda sentir o cheiro dos nossos dias.
Da brisa a tocar os cabelos.
Das noites quentes que nos abraçaram.
Do tempo em que nos engravidamos de sonhos.

Entretanto abortamos
Jogando ao vento as frases ditas.
E então essa quimera absurda sucumbiu
Como nós...

domingo, 15 de maio de 2016

"PERDI ALGUMA COISA QUE ME ERA ESSENCIAL E QUE JÁ NÃO ME É MAIS." - CLARICE LISPECTOR

"_ _ _ _ _ estou procurando, estou procurando.
Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que 
vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi.
Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa
desorganização profunda. Não confio no que me acon-
teceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de 
não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria
chamar desorganização, e teria a segurança de me aven-
turar, porque saberia depois para onde voltar: para a
organização anterior. A isso prefiro chamar desorgani-
zação pois não quero me confirmar no que vivi -- na
confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o
tinha, e sei que não tenho capacidade para outro."
A paixão segundo G.H. (p.15) - Clarice Lispector

sábado, 14 de maio de 2016

A MEDIDA DO ABISMO - VINÍCIUS DE MORAES

Não é o grito 
A medida do abismo? 
Por isso eu grito 
Sempre que cismo 
Sobre tua vida 
Tão louca e errada... 
- Que grito inútil! 
- Que imenso nada!


sábado, 7 de maio de 2016

PRIMEIRA PESSOA

Restam-me o silêncio e você.
O silêncio de uma docilidade pura. Favo intocado.
Algo do qual não se pretende distanciar.
Silêncio ansiado.

Você com este desejo estúpido de cuspir. Cuspa, pois.
Cuspa com toda força de sua espécie. Regurgite.
Não ame, se não sabe. Deixe para os que entendem.
Nenhum poder fará com que distinga o amor do ódio.
E logo pensará estar amando.
Outros seres não menos soturnos surgirão ao seu redor.
Como você, apreenderão o mesmo.
Porque a animalidade humana não se restringe à teoria.
Está viva e solta grunhidos.

E grito. 
Grito em segunda pessoa, porque falar em primeira me dói demais.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

MORTAL LOUCURA - GREGÓRIO DE MATOS

Na oração, que desaterra … a terra,
Quer Deus que a quem está o cuidado … dado,
Pregue que a vida é emprestado … estado,
Mistérios mil que desenterra … enterra

Quem não cuida de si, que é terra, … erra,
Que o alto Rei, por afamado … amado,
É quem lhe assiste ao desvelado … lado,
Da morte ao ar não desaferra, … aferra.
Quem do mundo a mortal loucura … cura,
A vontade de Deus sagrada … agrada
Firmar-lhe a vida em atadura … dura.
O voz zelosa, que dobrada … brada,
Já sei que a flor da formosura, … usura,
Será no fim dessa jornada … nada.

Cá está porque esse soneto me arrepia... pia.

domingo, 10 de abril de 2016

OS GRÃOS

Certo dia o professor Benjamin Abdalla disse: "Só é possível escrever sobre aquilo que se conhece." 
Cabe citar Walter Benjamin: "Quem viaja tem muito a contar."
E quem não viaja? Quem nada mais conhece além de sua experiência de vida fincada no mesmo lugar há muito tempo? Essa é a realidade que conhece. 
Nascem Os Grãos.
Não são os grãos cantados por Herbert Vianna.
Não há: "[...] traz dentro de si..."
Trazem sim nos bolsos as notas. Lucro de alguns poucos sobre o trabalho árduo de tantos.
Os grãos. De ouro, dizem. 
Letais os grãos. 
Quantos conhecem?
Para onde vão? Os grãos levados aos milhões para longe de seu lugar de origem.
Os grãos que dizimarão qualquer vida.
Pequenos grãos com força descomunal.
É o Zeppelin Hindenburg fabricado nas férteis terras..
Como tal, surpreenderá o mundo qualquer hora.




VERDADES E MENTIRAS

"[...] Dizem que uma mentira muitas vezes repetida acaba virando verdade. A conversa daquela turma me fazia pensar no inverso: não há verdade que não soe mentirosa quando proferida com ênfase e insistência demasiadas." (p. 89)
(Personagem Anita)
Romance CORDILHEIRA - DANIEL GALERA

MEDOS TANTOS

"Isso é que me enraivece. Queremos transformar o mundo e somos incapazes de transformar a nós próprios. Queremos ser livres, fazer a nossa vontade, e a todo momento arranjamos desculpas para reprimir nossos desejos. E o pior é que nos convencemos com as nossas próprias desculpas, deixamos de ser lúdicos. Só covardia. É medo de nos enfrentarmos, é um medo que nos ficou dos tempos em que temíamos a Deus, ou o pai ou o professor, é sempre o mesmo agente repressivo. Somos uns alienados. O escravo era totalmente alienado. Nós somos piores, porque nos alienamos a nós próprios. Há correntes que já se quebraram mas continuamos a transportá-las conosco, por medo de a deitarmos fora e depois nos sentirmos nus."
Do romance MAYOMBE
PEPETELA

PRAZO LIMITADO

"Nascemos com um prazo limitado para interpretar o mundo." (p.74)
Do livro CORDILHEIRA
DANIEL GALERA 

quarta-feira, 30 de março de 2016

FIM

"[...] é preciso insistir para que o amor se gaste 
e o amor acabe."
CAROLA SAAVEDRA (O inventário das coisas ausentes)

terça-feira, 15 de março de 2016

DAS ANDORINHAS

De súbito elas passam em grande número
Sob olhares curiosos cheios de interrogações.

E foi na passagem nervosa das andorinhas
Que entendi a minha própria passagem.
Não com revoada e festa coletiva
Mas com um gosto de bílis na alma.

Voltar para o sítio de onde saíra
Nem sempre é encontrar seu canto.
Deveria, pois, buscar meu canto
Em outros espaços que não andei.
Ou em alguma voz que nunca ouvi.

Canto de língua estranha

Que possa calar a vida que não se supõe vivida.

AUSÊNCIA

“Eu te amo, diz o texto. Talvez entre o eu te amo e o amor propriamente dito haja um espaço intransponível. Talvez o tempo que passa. Mas não apenas. Talvez um inevitável desencontro. Essa incoerência. Leio o texto como se fosse parte de um romance. Talvez seja isso, e quando o amor acaba resta apenas ficção” 
(O INVENTÁRIO DAS COISAS AUSENTES) CAROLA SAAVEDRA

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

DO MORTAL

"A morte (ou sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por dissolver-se como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do inditoso." 
Trecho do conto O IMORTAL - Jorge Luis Borges

DESCONHECER

"Pergunta-me se não tive conhecimento directo. Não directamente, apenas conheci algumas roupas sujas - disse depois Eva Lopo. E para quê conhecer directamente? Querer desconhecer não é uma é cobardia, é apenas colaborar com a realidade mais ampla e profunda que é o desconhecimento."
A COSTA DOS MURMÚRIOS - Lídia Jorge
Muitas vezes a ignorância nos salva de certas dores. Ignorar alguns episódios nem sempre é de todo ruim...

PRESSENTIMENTOS

"Tive um pressentimento que é a forma mais subtil 
de enganar o caos."
Personagem Eva Lopo
A COSTA DOS MURMÚRIOS - Lídia Jorge

Apenas o caos cá dentro 
é o que rouba de nós 
qualquer tipo 
de pressentimento.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

PALAVRA

De súbito nasce a palavra
Chega à garganta, asfixia a laringe
Um som preso nas cordas vocais
Palavra viagem, vertigem,
Paisagem, miragem.

Palavra nenhuma
Cofre vazio
Alma fatigada
Corpo exausto
Realidade desordenada.

Palavra andarilha
Vigília, matilha
Vocábulo ameaçador
Medo no ser que se assemelha à ilha.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

QUESTÕES

Onde dormi enquanto tantos voavam?
O que falei quando tantos me perguntavam?
Que esperanças dei no momento em que tantos desacreditavam?
Que saldo levei na surdina enquanto tantos rezavam?
O que sobrou de mim onde tantos esperavam?
...............................................................................


sábado, 12 de dezembro de 2015

DESIGNAÇÕES

Sofremos certa metamorfose com o tempo.
Metamorfose na vida de pessoas.
Passamos a ter outras designações para algumas.
"- Uma ex-aluna será sempre uma ex-aluna? " 
Não me recordo o motivo da pergunta,
Mas a resposta foi um "Não" certo.
Realmente: uma ex-aluna pode tornar-se tantas coisas...
Até anjo.

For: Joyce

QUERUBIM MANCHADO

E justamente naquele dia
O ébrio anjo da guarda 
Estava cumprindo seu dever:
E segurou os braços dela.
A queda que deveria ter sido e não foi.

Ei, anjo safado, 
Querubim alcoólatra
Agora caminha por aí
Manchado do sangue que não lhe pertence.

Para quem nunca antes conseguiu chegar na hora,
Respeito eterno.