sábado, 29 de outubro de 2016

SEDUÇÃO

A poesia me pega com sua roda dentada, 
me força a escutar imóvel 
o seu discurso esdrúxulo. 
Me abraça detrás do muro, levanta 
a saia pra eu ver, amorosa e doida. 
Acontece a má coisa, eu lhe digo, 
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar. 
Ela responde passando 
língua quente em meu pescoço, 
fala pau pra me acalmar, 
fala pedra, geometria, 
se descuida e fica meiga, 
aproveito pra me safar. 
Eu corro ela corre mais, 
Eu grito ela grita mais, 
sete demônios mais forte. 
Me pega a ponta do pé 
e vem até a cabeça, 
fazendo sulcos profundos. 
É de ferro a roda dentada dela. 
                         ADÉLIA PRADO

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

APÊNDICE - MANOEL DE BARROS

1. Ninguém consegue fugir do erro que veio. 
2. Poema é lugar onde a gente pode afirmar que o delírio é uma sensatez. 
3. A limpeza de um verso pode estar ligada a um termo sujo. 
4. Por não ser contaminada de contradições a linguagem dos pássaros só produz gorjeios. 
5. O início da voz tem formato de sol. 
6. O dom de esculpir o orvalho só encontrei na aranha. 
7. Pelos meus textos sou mudado mais do que pelo meu existir. 
8. Não é por fazimentos cerebrais que se chega ao milagre estético senão que por instinto linguístico. 
9. Sabedoria pode ser que seja ser mais estudado em gente do que em livros. 
10. Quem se encosta em ser concha é que pode saber das origens do som. 


                                                 

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

A CASA DOS CONTOS

               Éramos três aspirantes a aventureiras. Resolvemos um dia nos embrenhar pelas estradas mineiras a fim de conhecermos cidades históricas e ou famosas por outro motivo. O roteiro estava na cabeça: Ouro Preto, Mariana, Sabará, Congonhas (sugeridas pelas duas) e São Tomé das Letras (indicação minha). Três professoras, as primeiras cidades eram importantes para as três por isso. Uma de nós era historiadora. Prato cheio para suas aulas. Fiquei mais animada quando uma delas (a professora de Língua Portuguesa) disse que em Outro Preto havia a Casa dos Contos. Sem sombra de dúvidas, essa viagem seria especial.
                Saímos em uma manhã de janeiro (não me recordo o ano) cheias de planos. O destino era longe, portanto pernoitamos duas vezes antes de chegar a Ouro Preto. “Eu só dirijo de dia”, disse logo. Todas concordamos que era mais seguro ir sem pressa.
                As estradas de Minas são tortuosas. Lindas! Montanhas pelos caminhos. Muitas curvas. Antes de sairmos do nosso estado, amedrontou-nos uma pesada chuva na Serra da Petrovina. Entretanto, não conseguiu diminuir nosso anseio. Já em Minas, presenciamos um acidente horrendo entre um ônibus e uma carreta que se encontraram em uma curva fechada. Isso também não nos amoleceu. Queríamos chegar às cidades, à cultura mineira, à história, aos contos, causos e às Letras de São Tomé. Fomos provando das comidas mineiras nos restaurantes que parávamos e da hospitalidade invejável daquele povo.
                No terceiro dia, finalmente chegamos à tarde em Ouro Preto. Andamos um pouco. Procuramos uma pousada perto dos museus do centro, jantamos e nos recolhemos sonhando com o outro dia.
                Acordadas e bem dispostas, vimos o sol raiar na cidade histórica. Saímos bem cedo para o tour pelos museus, igrejas e ruas centenárias por onde escravos pisaram aos montes para erguerem as construções portuguesas que saltavam à vista. Caminhando por ali, pensávamos a Inconfidência Mineira, Tiradentes, o poeta inconfidente Cláudio Manoel da Costa, e o mais ilustre morador dessas paragens, o Aleijadinho. Tudo foi devidamente visto, perguntado, investigado pelas três curiosas. Mas faltava ainda um lugar de suma importância para as duas professoras de Português que compunham o grupo: a Casa dos Contos.
                Perguntamos ali pelo centro, alguns não souberam explicar direito, outros nos mostraram alguns caminhos diferentes. Era tarde, resolvemos tomar um rumo e caminhar até lá. Cansadas, estávamos o dia todo em visitações, caminhávamos na ânsia de chegarmos logo e nos refastelarmos lendo alguns contos na Casa.

                Uma pessoa, pelo caminho, disse-nos que provavelmente estaria fechado. Duvidamos, e com o sol gritando sobre nossas cabeças vencemos as ladeiras até chegarmos à frente da Casa. Realmente estava fechada para público. Mas pedimos gentilmente que nos deixassem entrar. Vimos, então, um tanto de dinheiro antigo espalhado em exposição. Estranhamos. Olhamo-nos. Santa ignorância, devemos ter pensado as três. Começamos a rir com um certo desgosto. Havíamos sim encontrado a Casa dos Contos. Dos contos de réis. 

IRREVERSIBILIDADE

"Modificar o passado não é modificar um só facto;
é anular as suas consequências, 
que tendem a ser infinitas. 
Por outras palavras:
é criar duas histórias universais."
Jorge Luis  Borges
(A outra Morte)

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

"SOU QUALQUER COISA DE INTERMÉDIO..."

"SER UM MESMO É CONDENAR-SE À MUTILAÇÃO,
POIS O HOMEM É APETITE PERPÉTUO DE SER OUTRO."
OCTÁVIO PAZ

domingo, 16 de outubro de 2016

FANTASIA...

"AS OBRAS DE ARTE SÃO,
PARA A PSICANÁLISE, 
SONHOS DIURNOS [...]"
Teoria Estética (p.19) - Theodor W. Adorno
Miguel de Cervantes que o diga...

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

NULIDADE

"O país da fantasia é, neste mundo, 
o único que merece ser habitado;
a essência do homem é tão nula 
que só é belo aquilo o que não existe."
Rousseau
 

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

POETAR

"NINGUÉM ESCREVERIA VERSOS
SE O PROBLEMA DA POESIA 
CONSISTISSE EM FAZER-SE
COMPREENSÍVEL."
EUGENIO MONTALE

O POETA...

"ÉS BILINGUE ENTRE COISAS 
DUPLAMENTE AGUDAS, 
TU MESMO ÉS UMA LUTA 
ENTRE TUDO AQUILO QUE LUTA, 
FALANDO NO AMBÍGUO 
COMO ALGUÉM QUE SE DESORIENTOU NA LUTA 
ENTRE AS ASAS E OS ESPINHOS."
SAINT-JOHN PERSE

PROVÁVEL...

"EXISTE UMA CERTA GLÓRIA 
EM NÃO SER COMPREENDIDO."
BAUDELAIRE